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"Analisa bem quem é teu amigo, porque se o consideras como tal e ele não o for, pode muito bem ser o teu principal inimigo"

Anónimo
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O que nos reserva 2004?

Aceitam-se críticas, dúvidas, opiniões e pareceres. Basta comentar ali em cima ou enviar-me um e-mail.

Uma etapa vencida... outra que se aproxima;
Nesta época de amor e de reflexão, a todos desejo... um Feliz Natal

Vai ser publicado, na próxima segunda-feira, dia 17, no suplemento "das ARTES das LETRAS" juntamente com O Primeiro de Janeiro, o seguinte artigo, a propósito do I Encontro de Escritores Locais "Vozes do Douro".


Lutar contra o fatalismo


Promovido e organizado pela Câmara Municipal de Lamego, o I Encontro de Escritores Locais "Vozes do Douro", vai ter lugar nos próximos dias 21 e 22 de Novembro. Acima de tudo, pretende-se, com este evento, "dar voz aos durienses", tal como nos contou o vice-presidente e vereador dos assuntos sociais, Joaquim Sarmento.

Retomar as tertúlias de Lamego, no respeito pela liberdade e pluralidade. É tendo por base este desiderato, que se insere o encontro de escritores locais, alargado a todas as vozes do Douro Sul, com obras publicadas e amiudadas vezes esquecidas pelos órgãos de comunicação social. Tendo por pano de fundo, o rio Douro, tão perto e, ao mesmo tempo, tão afastado desta cidade, Património Mundial, serve este evento como uma forma de o divulgar, através da escrita. Desde sempre, o Douro fez parte da vida e do quotidiano destas gentes e destas terras; daí a sua envolvência junto daqueles que sofrem as agruras da interioridade e que sentem na pele, as dificuldades em fazer passar a sua mensagem.
Olhar para o País na sua coesão e na sua dimensão nacional. Partindo deste objectivo, Joaquim Sarmento traça, aqui, as premissas daquele que será este I Encontro, direccionado não só aos lamecenses ou aos durienses, como também a todos os beirões e aos portugueses em geral. Nesse sentido, com este evento, ir-se-á proceder ao lançamento do livro "Vozes do Douro - antologia de textos durienses" e que conta com a participação e colaboração de cerca de meia centena de textos de escritores locais. Após a sessão de abertura, que contará com a presença de Mário Soares, será feita a apresentação pública deste livro, a cargo de Gaspar Martins Pereira, director da comissão instaladora do Museu do Douro. No segundo dia, este evento terá dois painéis, relacionados com esta temática. O primeiro painel abordará "O Livro: uma abordagem à identidade local ou regional/papel dos intelectuais no combate à interioridade", cujo debate será coordenado pelo jornalista Carlos Pinto Coelho; o segundo painel, coordenado pelo escritor Fernando Dacosta abordará o tema "Livro e Tertúlia: divórcio consumado ou retorno às origens?". Por fim, a sessão de encerramento caberá ao Bispo de Lamego, D. Jacinto Botelho.

Retomar tertúlias...
Numa altura em que os espaços de convívios e as tertúlias, praticamente desapareceram, Joaquim Sarmento é de opinião que "estamos limitados aos programas de qualidade duvidosa que as televisões nos tentam impingir" e, nesse sentido, defende "um retorno às origens, ao convívio, através da leitura, da reflexão, de debates e de colóquios". Paralelamente a isso, "este livro poderá vir a ter um papel reflexivo à volta desta temática", acrescentando que, "com este encontro, queremos fazer sobressair uma expressão de força e de autenticidade, destacando-se o espaço de beleza única e rara como é o Douro".
Uma outra mensagem que se pretende com este encontro, tal como nos salienta Joaquim Sarmento, passa por "lutarmos contra o fatalismo, na medida em que devemos acreditar nas nossas capacidades e nos nossos valores, tanto mais que, neste momento, não existe qualquer discriminação positiva em favor das regiões mais desfavorecidas". Com efeito, numa altura em que o Litoral continua a apresentar um desenvolvimento mais acelerado em relação ao Interior e, numa fase em que o Interior continua a ser mais prejudicado, Joaquim Sarmento garante que "não basta termos a riqueza e a solidariedade nacional; é necessário exprimirmo-nos, sem lamúrias e com a grande convicção de que somos capazes de dar o salto qualitativo". De igual forma, "nós temos capacidades, temos valores e temos massa crítica para que isso possa acontecer". Daí que, a principal mensagem que se pretende transmitir para o público em geral, passa por, desde logo, "ultrapassar a lamentação que nos conduz a um pessimismo crónico que nos é prejudicial".

Cidade cultura
Lamego é, como sempre foi, uma cidade que se envolve no Douro; de igual forma, o Douro abrange esta cidade beirã. Também os lamecenses sempre se sentiram atraídos pelo Douro e, da mesma forma, o Douro convida os lamecenses a ele se juntarem. Joaquim Sarmento partilha desta mesma ideia e salienta que "uma parte importante do concelho identifica-se com o rio Douro; daí estar inserido, e muito bem, no Alto Douro Vinhateiro - Património Mundial". Por outro lado, "essa forte relação tem que ser aprofundada cada vez mais, na medida em que são muitas as vozes e as pessoas que querem afastar Lamego do Douro", nomeadamente através da criação das comunidades urbanas, que terá a cidade de Viseu como cidade principal dessa mesma comunidade.
Considerada como a cidade portuguesa com mais monumentos por metro quadrado, Lamego pretende, no futuro, continuar a dar cartas no que diz respeito à cultura e, tal como nos confessa Joaquim Sarmento, "Lamego vai continuar a impor-se pelo seu património, o que nos orgulha e, a par disso, temos uma agenda cultural razoável, muito diversa", acrescentando que "é uma cidade cultural que tem que se impor ao nível da cultura e do turismo de qualidade". Por conseguinte, "estamos a dar grandes passos nesse sentido".
Quanto a uma segunda edição deste Encontro de Escritores Locais "Vozes do Douro", Joaquim Sarmento confessa que, "primeiro que tudo, esperamos que esta edição produza o sucesso que estamos a idealizar" e, depois, "teremos que fazer uma avaliação do que foi este I Encontro, para que possamos estruturar a segunda edição", conclui.

António Zenha

Foi publicada na passada terça-feira, 4, a seguinte entrevista, no jornal O Primeiro de Janeiro.

Campeão Nacional da Divisão 2 da Taça Nacional de Autocross, António Zenha confessa que...


"Fiz o meu melhor"


Natural da vila de Serzedo, casado e pai de uma filha, aos 40 anos de idade, António Zenha orgulha-se de poder dizer que é Campeão Nacional da Divisão 2 da Taça Nacional de Autocross. A sua vitória, mais do que ao seu desempenho, confessa, "devo-a ao sacrifício que a minha equipa fez para que eu pudesse subir ao pódio e, o que fiz e alcancei, foi um prémio para todos eles". Lamentos, apenas um: a falta de patrocínios, o que vai fazer com que já tenha anunciado o adeus às corridas.

Empresário de profissão ligado à indústria das construções metálicas, António Zenha desde cedo sentiu o bichinho das corridas e dos automóveis. Foi, no entanto, no motocross que começou a dar os «primeiros passos». Decorria o ano de 1985 e, a fazer-lhe companhia, tinha o seu irmão Manuel Zenha. Segundo nos conta, "foram experiências boas, que me permitiram conhecer novas pessoas, novos lugares e, foi aqui, que me inteirei dos meandros do desporto automóvel".

A atracção pelas quatro rodas fê-los abandonar o motocross, apesar de ter servido para "ficarmos a conhecer melhor o comportamento de alguns pilotos".

Estreou-se, em Agosto de 1998, no ralicross da Lousada, ao volante de um BMW 320 IS, alcançando um satisfatório sétimo lugar. No meio de alguns altos e outros tantos baixos, António Zenha fala-nos de uma paixão que sempre o acompanhou, mas que nem sempre lhe deu o devido valor.

Sempre encarou o desporto automóvel como um desafio a ultrapassar, mais do que uma diversão de fim-de-semana. Segundo nos confessa, "sempre que entrava em alguma prova, era sempre com o objectivo de, se não a ganhar, pelo menos, ficar nos três primeiros lugares". Isto porque, "não se pode levar este desporto na brincadeira". Em relação ao facto de este ser um desporto em que o amadorismo predomina, Zenha esclarece que "este é um desporto muito caro e que exige muito de nós; por isso, as pessoas que correm não me venham dizer que fazem isto por desportivismo", salientando que, "por mais que nós não admitamos, há sempre o factor prémio envolvido".

E como é o dia-a-dia de um campeão nacional de autocross? "De segunda a sexta-feira, trabalho na empresa, juntamente com os meus irmãos e, por volta das 3 ou 4 da manhã de sexta para sábado, a equipa arranca para as provas". Terminada a prova, "é o regresso à normalidade e ao dia-a-dia da empresa, que começa às sete da manhã", adianta.

Apoio de peso
É por tudo isto que o cansaço está presente na sua mente e no seu corpo ao longo de toda a prova. Por outro lado, "na pré-grelha, chegava mesmo a fechar os olhos e pensava no sofrimento da minha equipa". Para «acalmar», por vezes, "cantava baixinho, porque me fazia sentir melhor comigo mesmo". No entanto, os nervos e a adrenalina, faziam-no acordar e voltar ao «mundo real». Aliás, António Zenha afirma que "tudo o que sou e tudo o que consegui alcançar, devo-o à minha equipa técnica", acrescentando que "enquanto corro, tenho que compensar o sacrifício que eles estão a fazer por mim". Salientando que "não os poderia, de forma alguma, desapontar", Zenha defende que "a minha vitória e/ou o meu bom desempenho era um prémio que eu lhes oferecia, mais do que a minha subida ao pódio". No entanto, Zenha sabe que "todo o apoio que eles me dão, transmite-me a segurança e a estabilidade que necessito para seguir em frente".

Este ano, no entanto, "as coisas estão mais complicadas, apesar de ser muito mais fácil entrar neste tipo de campeonatos". Apesar de todas as dificuldades por que se depara, Zenha lamenta, no entanto, a falta de patrocínios. Depois de ter preparado um portfolio para apresentar às muitas empresas locais, o certo é que os patrocínios continuam a não aparecer. Segundo nos conta, "esta crise por que o nosso País está a passar, reflecte-se também no desporto e, dessa forma, muitas empresas cortam nas despesas publicitárias". Mesmo ao nível das instituições públicas, nomeadamente no que diz respeito à junta de freguesia e à câmara municipal, "os apoios são muitos escassos". Quanto àqueles apoios que já dispõe, Zenha salienta que "são todos na base de permutas, o que não resolve nada".

Considerando que este é um tipo de desporto que tem cada vez mais notoriedade e visibilidade por parte do público em geral e da comunicação social, Zenha confessa que "podia-se fazer muito mais pelo desporto automóvel, inclusive, podia levar o nome de Serzedo de Norte ao Sul do País".

Fim anunciado?
O facto de, António Zenha não contar com apoios e patrocínios de peso, levou-o já a determinar o seu futuro no desporto automóvel. Segundo nos conta, "reuni-me com toda a minha equipa técnica e, na falta de apoios, já anunciei a minha retirada deste desporto". Para além da falta desses apoios, Zenha salienta que "é preciso muita determinação para seguir com isto em frente", acrescentando que "os custos de manutenção do meu carro são muito elevados e toda a logística envolvida por detrás de cada prova, movimenta muito dinheiro".

Contudo, António Zenha não fecha as portas às corridas automóveis. Tal como nos adianta, "o meu irmão é um excelente piloto de karting e, agora, acho que chegou a altura de eu lhe retribuir todo o sucesso que ele me proporcionou".

Assim sendo, Manuel Zenha, com o apoio de toda a equipa que está ao serviço do irmão, irá preparar-se para enfrentar as várias pistas de karting do País, uma vez que "nesta área, os apoios necessários são muito menores e toda a logística que é necessária, não envolve grandes capitais".

Em jeito de conclusão e, fazendo um pouco de futurismo, António Zenha afirma que "vou continuar a procurar patrocínios sólidos, até porque o bichinho do autocross ainda continua a mexer dentro de mim".

Viajar com...

Vai ser publicado, amanhã, dia 15, a seguinte artigo, no suplemento "Viajar com... os caminhos da literatura", juntamente com o jornal O Primeiro de Janeiro.


Viajar com ou os caminhos da literatura...



Abrir novos horizontes


Trata-se de um projecto da Delegação Regional da Cultura do Norte e surge na sequência de iniciativas anteriores que tiveram como objectivo a organização de roteiros literários em torno de escritores ligados à região Norte do País.

Partindo da experiência adquirida, o projecto “Viajar com... Os caminhos da literatura”, pretende implementar uma acção de carácter regional, que potencie a temática da literatura e do património, numa lógica de cooperação e de rede, tirando partido das actuais capacidades que a tecnologia da informação e das comunicações disponibilizam. Tendo por base o património literário dos escritores, este projecto explora essa relação nas suas múltiplas abordagens, nomeadamente, ambientes, paisagens, monumentos, tradições, usos e costumes.
Aquilino Ribeiro, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Ferreira de Castro, Guerra Junqueiro, João de Araújo Correia, Miguel Torga, José Régio, Teixeira de Pascoais e Trindade Coelho. São estes dez, os autores inseridos neste projecto, que conta com o apoio e colaboração das câmaras municipais e associações culturais por onde estes escritores passaram.
De igual forma, pretende-se colocar o leitor perante dois desafios: viajar pelo Norte de Portugal, guiado pela mão experiente e mágica dos nossos escritores e, “viajar por dentro dos caminhos da literatura, descobrindo as paisagens, as cores, os sons que inspiraram as páginas que eles nos legaram, as suas acções, as gentes que deram corpo às personagens e heróis que fazem, hoje, parte do nosso imaginário colectivo”. Quem o afirma é Costa Leite, delegado regional da Cultura do Norte.
Como grande função, este projecto tem o objectivo de apoiar as associações e fundações ligadas a estes escritores. Através de uma candidatura ao Programa Operacional de Apoio Eixo Prioritário 1, medida 1.4, a Delegação Regional da Cultura do Norte está a dotar essas associações ligadas aos escritores, de meios informáticos que lhes divulgar os «seus» escritores. De igual forma, todas as informações serão canalizadas, por essas associações, para uma página na Internet (http://www.viajarcom.org), bem como a publicação de um roteiro de cada um dos escritores e que ficará concluída até ao próximo mês de Dezembro. Com esses roteiros pretende-se, acima de tudo, dar a conhecer o escritor e a sua obra, identificando-se os lugares de inspiração.
Numa segunda fase, vai-se procurar divulgar estes escritores nas escolas da região Norte do País, por forma a que, crianças e jovens, tenham contacto com o trabalho que foi desenvolvido pelos escritores.

Apostar na cultura
Servindo como complemento ao trabalho que o ministério da Educação está a desenvolver junto das escolas, a escolha dos escritores recaiu no facto de serem uma referência para a língua portuguesa. Costa Leite adianta que “mais importante do que promover este evento, pretendemos causar, junto dos jovens, o interesse pelos escritores que se destacaram na promoção da nossa língua”, acrescentando que “isso será como que abrir novos horizontes aos próprios jovens, porque o principal não é o que os jovens lêem em casa; mais do que isso, é dar-lhes a conhecer os outros autores que podem/devem ser seleccionados, não apenas como objecto de estudo, mas como complemento cultural”.
É, partindo desse pressuposto que Costa Leite considera que “a cultura tem que passar pelos mais jovens e, todo o investimento que for feito neles, será um investimento de futuro”. Para além disso, “se formos capazes de aproveitar as potencialidades da região, promovendo o chamado turismo cultural, seremos capazes de estagnar a desertificação humana, que começamos já a sentir, para passarmos a dar razões aos nossos jovens para continuarem a viver aqui”.

Ler em português
Mais do que oferecer cultura aos portugueses, Costa Leite confessa que “queremos, acima de tudo, despertar curiosidades; fazer com que as pessoa procurem livros onde se fale daquele assunto que está a ser lido e/ou abordado”. E, nada melhor do que começar com autores portugueses. Segundo conta o nosso entrevistado, “não há nada mais belo do que estarmos a ler uma determinada passagem de um livro e observarmos a natureza que está a ser descrita nessa mesma passagem”. Por outro lado, “o legado que nos foi deixado por esses e outros autores, é demasiado importante para o deixarmos cair no esquecimento”.
Outro projectos em desenvolvimento pela Delegação Regional da Cultura do Norte, passam por, em parceria com entidades da Galiza, dar a conhecer os nossos escritores nessa região espanhola, partindo do facto de, ambas as línguas serem muito idênticas. Por outro lado, estão a ser desenvolvidos roteiros culturais, através do intercâmbio de professores portugueses e galegos, por forma a serem estudados escritores dos dois países. Um outro projecto, ainda em fase de arranque, vai contar com os apoios da Comissão de Coordenação da Região Norte e do ministério da Educação, e vai passar por tentar criar um programa integrado na promoção da leitura, destinado às populações mais carenciadas.

Acime

Vai ser publicado, amanhã, dia 14, a seguinte entrevista, no suplemento "Minorias Étnicas e Imigração", juntamente com o jornal O Primeiro de Janeiro.


Padre António Vaz Pinto confessa que o seu trabalho está...



"Ao serviço dos imigrantes"


Numa altura em que o nosso País já registou a entrada de mais de 450 mil imigrantes, “O Primeiro de Janeiro” foi conversar com o Alto Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas. Mais do que aquilo que já foi feito, quisemos sabemos como tem sido esta experiência e que projectos existem para o futuro.

O Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas, na directa dependência do primeiro ministro, tem o carácter de estrutura interdepartamental de apoio e consulta do Governo em matéria de imigração e minorias étnicas. Tem como missão, promover a integração dos imigrantes e minorias étnicas na sociedade portuguesa, assegurar a participação e a colaboração das associações representativas dos imigrantes, parceiros sociais e instituições de solidariedade social, na definição das políticas de integração social e de combate à exclusão, assim como, acompanhar a aplicação dos instrumentos legais de prevenção e proibição das discriminações no exercício de direitos por motivos baseados na raça, cor, nacionalidade ou origem étnica.

Que motivos o levaram a aceitar o convite para ser o Alto Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas?
Os motivos foram humanos e, não o posso esconder, cristãos, também. Trata-se da promoção da justiça, que pertence fundamentalmente à minha vocação humana e cristã. Perante esta realidade incontornável que é a presença de mais de 450 mil imigrantes em Portugal, não vi motivo nenhum para dizer não. Quer de caracter político, como pelas condições que me foram propostas. Por isso mesmo e, como é minha vocação levar os outros a serem mais humanos e a viverem plenamente, aceitei sem pensar duas vezes.

Que balanço é que faz da sua actividade?
Eu não gosto muito de falar em balanços, porque os balanços são feitos pelos outros; mas, Portugal, que sempre foi um País de emigrantes, tornou-se um País de imigrantes. Sempre houve imigrantes oriundos dos países africanos de língua portuguesa, depois do Brasil e, nos últimos anos, tem-se assistido à vinda de imigrantes dos países de Leste. No entanto, na Europa, não havia uma verdadeira política pensada, reflectida de imigração e, apenas se começou a tomar consciência dessa realidade, devido às reacções xenófobas e racistas por parte de alguns sectores em vários países. Por causa disso, foi possível fazer-se algumas mudanças e, em muitos casos, já se verificaram muitos resultados positivos. Nesse sentido, começa a haver uma perspectiva mais global e um olhar mais atento, perante o que deve ser feito.

Com que tipo de dificuldades é que teve de lidar?
Eu tenho, por parte da imigração, uma visão muito positiva, não só devido ao enriquecimento humano e cultural, como também social, financeiro e económico. Contudo, é evidente que, num País como o nosso, a presença de tantos imigrantes, vindos de tantos países, levanta alguns problemas. E, essa, é uma realidade perante a qual eu não posso fechar os olhos. Dado tudo isto e, uma vez que pude trabalhar com um orçamento maior, se comparar com o anterior Alto Comissário, posso dizer que a principal dificuldade, de início, foi haver pessoas da própria Igreja que interpretaram esta minha aceitação, como um favor ao Governo. Desde logo eu afirmo que não faço favores desse género a ninguém.
Estou ao serviço dos imigrantes e de Portugal e, daí, a minha missão não ter carácter político-partidário. Com certeza que tenho a confiança deste Governo, como teria de outro qualquer.
Uma outra dificuldade, maior, tem a ver com a máquina administrativa. Em Portugal, as coisas funcionam tão lentamente, tão dificilmente e com tantos obstáculos que, muita da minha energia é gasta em coisas que deveriam correr calmamente e serenamente. Por parte dos imigrantes, temos sido bem recebidos e o nosso trabalho tem tido bastante receptividade graças, também, ao apoio de muitas associações.

Como é que caracteriza a actual situação dos imigrantes em Portugal?
É muito difícil fazer uma caracterização, porque existem várias situações que merecem tratamentos distintos. No entanto, o que importa salientar é que tal como no resto da Europa o nosso País deve caminhar para uma situação de imigração legal, ou seja, antes de cá chegarem, os imigrantes devem vir já legalizados, com o seu posto de trabalho já definido. Se, por um lado, isso já se começa a verificar, por outro lado, há um conjunto ainda significativo de imigrantes que não se encontram legalizados, nem têm fundamento para o serem. No entanto, trata-se de pessoas que têm de ser tratadas com toda a humanidade, com todo o respeito e compreensão, sem esquecer a punição pelos que os traíram, enganaram e exploraram.

Mas acha que Portugal ainda pode receber mais imigrantes?
Não se pode colocar o problema dessa forma porque, segundo um estudo recente da União Europeia, que incluiu Portugal, concluiu-se que a imigração não aumenta o desemprego, nem a violência nem a economia paralela. Outra questão tem a ver com o trabalho que é feito pelos imigrantes, porque eles vêm fazer aquilo que os portugueses não querem fazer, da mesma forma que os nossos emigrantes estão a fazer lá fora, aquilo que os nacional não fazem ou não querem fazer. Aliás, o fio condutor para se compreender a imigração, é o trabalho. Olhando para a história, o principal motivo que levou a que os povos fossem para outros países, foi o trabalho; trabalho esse que daria melhores condições de vida ao emigrante e à sua família. Está previsto para breve, um relatório que permite, conforme o andamento da economia do País, trazer mais ou menos imigrantes. Vamos caminhar, dessa forma, para um sistema de quotas; ele não é perfeito, mas será o menos imperfeito de todos os sistemas.

Não o deixa triste, o facto de nós recebermos tão mal alguns imigrantes, quando nós fomos tão bem recebidos lá fora?
A coisa mais importante de todas, quando se fala em imigração, é promover o bom acolhimento e a boa integração de todos aqueles que cá estão. Os portugueses nem sempre foram bem recebidos lá fora; alguns deles ainda o não são, hoje em dia. Agora, nós temos que nos comprometer, por uma questão de honestidade e de justiça, procurar dar aos imigrantes que estão no nosso País, aquilo que nós pedimos para os nossos emigrantes. Ainda para mais porque, se nós temos aqui menos de quinhentos mil imigrantes, no estrangeiro, temos mais de cinco milhões. A pergunta que eu faço é: será que nós queremos provocar um mau estar e a incitação naqueles portugueses que estão nos outros países?

Que comentários lhe apraz fazer sobre o acordo que foi celebrado entre Portugal e o Brasil, a propósito da legalização de cidadãos brasileiros a residir no nosso País?
Portugal é um país soberano; o Brasil, também e, entre eles, existe um tratado que permite certas disposições. Essa é a diferença entre um tratado bilateral (entre dois países) e um tratado multilateral (entre vários países). Agora, pelo que sei, estão a ser estudados outros acordos, com outros países, com vista à legalização de cidadãos desses mesmos países. Nesse sentido, o que aconteceu com os brasileiros, tratou-se de um precedente que, a longo prazo, provavelmente, vai tornar-se num bom precedente para cidadãos estrangeiros, de outros países.

Como é que pode haver uma maior e melhor integração dos imigrantes na nossa sociedade?
A Constituição da República Portuguesa e as leis portuguesas em geral, são muito favoráveis aos imigrantes e, em alguns aspectos, nós estamos mesmo mais evoluídos do que outros países europeus. Nesse sentido, a melhor forma de integrarmos os imigrantes, é que eles possam viver no nosso País, tal como vivem os portugueses, ou seja, usufruírem dos mesmos direitos de cidadania, beneficiar de regalias no emprego, na habitação, na saúde, na educação, tal como os portugueses beneficiam.

E quanto ao I Congresso Nacional sobre a imigração que irá ocorrer em Dezembro. Que motivos levam à sua organização?
Com um conjunto tão grande de especialistas que existe em Portugal e, com este fenómeno que é tão actual e tão importante, acho que era tempo de se promover um verdadeiro congresso, muito aberto, para o qual foram convidadas pessoas de reconhecida qualidade que, dentro das suas especialidades, nos possam ajudar a perceber melhor o que de mais importante poderá ser discutido na área da imigração. Daí o tema que foi escolhido ser “Diversidade, Cidadania e Integração”, no qual espero podermos reflectir sobre esta realidade.

Que conclusões gostaria que fossem retiradas desse encontro?
Tão simples quanto isto: a importância e a actualidade deste tema, a perspectiva positiva, a qualidade e a diversidade dos intervenientes.

E quanto a projectos?
Antes de mais, continuar com o que está a ser feito e, depois, outras coisas que serão comunicadas a seu tempo.

Infante Santo

Vai ser publicado, na próxima segunda-feira, 25, o seguinte artigo, no suplemento "Das Artes das Letras", juntamente com o jornal O Primeiro de Janeiro.


Estudar, de novo, a História


Para lembrar o sexto centenário do nascimento do Infante D. Fernando, que a tradição nacional consagrou com o conhecido nome de Infante Santo, o município da cidade de Santarém decidiu promover um ciclo de actividades, ao longo deste ano celebrativo.


Comemorando-se desde Setembro do ano passado os seiscentos anos do nascimento de D. Fernando, a Câmara Municipal de Santarém decidiu promover inúmeras actividades, entre as quais, um congresso internacional denominado "Santarém e o Infante Santo: 600 Anos", a ser realizado nos próximos dias 26 a 28 de Setembro. Acima de tudo, este evento tem como principal objectivo, proporcionar um debate científico e um aprofundamento da investigação acerca desta ilustre figura da Casa de Avis, que deixou a sua vida e o seu nome, indelevelmente ligados à história e à cultura portuguesas do século XV.
Por forma a estudar-se, este e outros temas, vão-se deslocar a Santarém, historiadores de sete universidades nacionais e três internacionais (Oxford, Casablanca e Corunha), como garantia da qualidade e excelência deste debate científico. De igual modo, vinte estudiosos e especialistas aceitaram partilhar o seu conhecimento com os escalabitanos, como ponto de partida para troca de saberes e culturas.
A propósito deste congresso, conversámos com Luís Nazaré Ferreira, um dos membros da organização deste congresso. Verdade seja dita, a história de Santarém está, indubitavelmente, ligada à história nacional do nosso País e, nos grandes acontecimentos, esta cidade interveio, juntamente com as personalidades que ali viveram e que por ali passaram. Paralelamente a isso, foi o Infante Santo, o primeiro mártir da expansão portuguesa, incluindo o facto de ele ter sido canonizado pelo povo e não pela Igreja. Nesse sentido, pretende-se, com a realização deste congresso, “estudar, de novo, a História do nosso País”, tal como nos refere Luís Nazaré Ferreira. Para além disso, defende que “promovendo-se a figura do Infante D. Fernando, estamos a promover a imagem de Santarém”. Também conhecida como «a Capital do Gótico», Luís Nazaré Ferreira salienta que, “acima de tudo, queremos inter-relacionar a história de Santarém com a figura do Infante Santo”.


Conferências

Quanto aos trabalhos do congresso, estes decorrerão em sessões plenárias com a apresentação de conferências proferidas por especialistas convidados e, simultaneamente, haverá sessões de comunicações livres. Divididas em quatro categorias, as conferências abordarão os mais variados temas ligados à história, como seja, a Corte de Avis, a Inclítica Geração, as relações luso-britânicas, a vida do Infante Santo e, Portugal e o Norte de África. Quanto à cultura e literatura, os temas a abordar são o legado clássico, a literatura na época do Infante D. Fernando e, o Infante na literatura peninsular. A polémica em volta da religião, será outro aspecto a abordar, nomeadamente, o processo de canonização, o culto e a devoção do Infante Santo e a cultura religiosa do infante. Por último e, no tocante às artes, ir-se-á abordar a iconografia fernandina e a arte portuguesa dos séculos XIV a XVI.
Paralelamente a este congresso, irão decorrer outras actividades culturais, nomeadamente, visitas guiadas, exposições e a representação da peça "El príncipe constante" de Calderón de la Barca, pelo Centro Dramático "Bernardo Santareno", logo no dia 26, no Convento de S. Francisco. No dia seguinte, na Igreja da Graça, haverá um concerto de música medieval, pelo grupo espanhol "Los cinco siglos".


Cultura... com futuro

Prestes a ser realizado este congresso, conversamos também com Rui Pedro Barreiro, presidente da Câmara Municipal de Santarém, no sentido de sabermos qual a importância deste evento, bem como, que projectos ao nível cultural, estão a ser pensados pela autarquia, para o futuro.

Qual a importância deste congresso internacional?
Projectar Santarém no Portugal de hoje, é um dos objectivos deste congresso internacional. Propósito mediado através da promoção do conhecimento da sua história, da divulgação do seu património e do reconhecimento das individualidades do seu passado. O congresso é um convite para se estudar, de novo, essa história e, também, para dar a conhecer o riquíssimo património de Santarém, que regista a memória do seu passado grandioso. Concretamente, como diz a Comissão Organizadora, os objectivos do congresso são animar um grande debate científico em torno de Santarém e da figura do Infante Santo, uma das muitas personalidades históricas cujo berço foi a nossa cidade.

Qual o papel do Infante Santo na promoção e/ou visibilidade da cidade de Santarém?
O Infante Santo é, como referi, um filho de Santarém. É uma figura da história nacional e faz parte do imaginário popular como santo. Os 600 anos da sua morte deveriam ter sido assinalados com comemorações nacionais, mas Santarém não esquece os seus filhos e daí esta homenagem ao infante que foi mártir pela Pátria. Esta celebração obteve desde logo o apoio unânime da comunidade científica e académica portuguesa. Para a câmara municipal, os homens, as figuras, também são património desta cidade.

Qual o principal objectivo que pretendem ver atingido com a realização deste congresso?
Pretendemos, obviamente, engrandecer e dar a conhecer melhor Santarém. Desejamos, também, que este fórum mostre, hoje, as várias dimensões do nosso concelho. Ambicionamos fomentar a auto-estima dos escalabitanos de hoje, mostrar-lhes a importância do passado da sua cidade e projectar-lhe a esperança do futuro. Os santarenos devem conhecer o quanto foi, e é grande a sua cidade, para daí retirarem os ensinamentos para delinearem o seu destino. O amor e o gosto pela sua cidade nasce com o conhecimento da sua história e das suas potencialidades.

Que outros projectos de âmbito cultural tem a autarquia para o futuro?
Para nós, o peso da história de Santarém e a importância do seu património, que transporta a nossa herança cultural, vai continuar a ser factor determinante para a definição da política cultural da câmara municipal. E isso é, obviamente, uma vantagem. Pretendemos consolidar a identidade, valorizando os factores históricos e patrimoniais. O gótico, naturalmente, mas não só. Também as paisagens, as lendas e as tradições. Santarém possui, a magnificência das suas belezas panorâmicas que se vislumbram das janelas do seu centro histórico, abertas para o Tejo e para os campos que a rodeiam que, conjugadas com o valor e o encanto dos seus monumentos, dão-nos uma visão de deleite e deslumbramento. É esta a imagem que se pretende promover, pois é esta a imagem que fica no olhar. Vamos realizar acções culturais de revivificação das pedras, recuperação do centro histórico e de roteiros, abertura de miradouros panorâmicos, fomentando o turismo cultural, que vai ser um meio de estabelecer uma relação entre os atractivos específicos, da cidade e do concelho, ou seja, entre o seu património, os seus miradouros, as suas paisagens, as suas tradições e festas e o mercado turístico.
No campo da revitalização patrimonial e ambiental, queremos recuperar o centro histórico, com e para os escalabitanos. As cidades são feitas de pedras, de árvores, de sinais, de símbolos e de memórias. Mas devemos considera-las como organismos vivos, com as gentes que as habitam, que as habitaram e que as irão habitar amanhã. Achamos que é cada vez mais importante consciencializar os habitantes de Santarém para o grande problema que é o da conservação da sua herança historico-cultural. As cidades devem ser sempre centros de vida e não cenários. Queremos mais vida para Santarém.

A partir de hoje e, até ao próximo dia 8 de Setembro, vou estar de férias. Assim, não virei aqui actualizar o blog.
Boas férias para quem está de férias e, bom trabalho para quem está a trabalhar...

Gravatá

Este meu blog foi distinguido no Top 10+ do Luiz Antônio Gravatá. Trata-se de um colunista do Jornal O Globo que reúne um conjunto de temas e os destaca a cada semana.
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Comiss?rio Neto

Texto a ser publicado no próximo dia 9 de Agosto, no jornal O Primeiro de Janeiro.

Para o comissário Ribeiro Neto, chefe do núcleo de investigação policial do comando da PSP do Porto...

“Não somos os maus da fita”

Lidam diariamente com a problemática da toxicodependência. São agentes da PSP e, com a agravante de, para além de lidarem com os consumidores, ainda têm que se preocupar com o outro lado deste flagelo: o do tráfico. Para entendermos melhor esta realidade, fomos conversar com o comissário Neto.

São agentes da autoridade e têm, por principal missão, defender a legalidade democrática, garantindo a segurança interna e os direitos dos cidadãos, nos termos do disposto na nossa Constituição e na lei. Paralelamente a isso, a actividade das forças de segurança está sujeita ao interesse e exigências da sociedade a cuja protecção se destina, pois trata-se, sem dúvida, do exercício de um serviço público, a favor da comunidade. Para esse efeito, um dos principais objectivos das autoridades policiais, é o de promover as condições de segurança, que assegurem o normal funcionamento das instituições democráticas, bem como o exercício dos direitos, liberdades e o respeito pelas garantias fundamentais dos cidadãos. Por outro lado, deve a nossa polícia, garantir a manutenção da ordem, segurança e tranquilidade públicas, prevenindo a criminalidade e a prática dos demais actos contrários à lei e aos regulamentos, bem como prevenir a criminalidade organizada e o terrorismo, em coordenação com as demais forças e serviços de segurança.
Abordando a problemática da toxicodependência pelo «outro» lado e, falando em consumos, o nosso país sofreu uma mudança de legislação, com a descriminalização do consumo de estupefacientes. Antes, quando um indivíduo era abordado e, na posse de qualquer droga, ele era detido; hoje, existe uma quantidade mínima que se pressupõe, o consumidor, possa trazer consigo. No entanto, Ribeiro Neto é de opinião que essa descriminalização não levou a uma diminuição da oferta. Segundo nos conta, “as pessoas fazem-se valer desses números para circularem com mais à-vontade na posse de drogas”. Uma outra questão, tem a ver com a própria intervenção da PSP, ao nível do combate do tráfico. Com efeito, a cidade do Porto tinha as suas «manchas» bem definidas e delineadas no âmbito do tráfico de drogas. São conhecidas algumas das intervenções que a PSP tinha nesse sentido, em alguns dos mais populares bairros portuenses, como seja a Sé, o S. João de Deus e o bairro do Cerco. No entanto, a actuação desta força policial fez, senão desaparecer, pelo menos reduzir drasticamente a distribuição directa nalguns destes bairros. No entanto, este problema fazia-se sentir, ultimamente, com mais incidência, no bairro do Aleixo, “se bem que a nossa última intervenção fez com que já não haja aquela avalanche de antes”, salienta Ribeiro Neto, acrescentando que, “é certo que, pelas suas características geográficas, este vai ser um local, tal como o bairro da Sé onde se vai vender sempre drogas, havendo necessidade, por isso, de complementar a acção judiciária de polícia com a componente preventiva utilizando a acção uniformizada e outras intervenções multidisciplinares (Câmara Municipal, equipas de rua) para pôr cobro, pelo menos, à visibilidade do fenómeno”. Apesar de ser claro e notório que se trafica e vende drogas no bairro do Aleixo, este chefe do núcleo de investigação policial do comando da PSP do Porto refere, no entanto, que “este fenómeno deixou de ser tão visível como antes, não só graças às estratégias operacionais da polícia, como pelo facto de que, a heroína e a cocaína deixaram de ser as drogas de eleição”. O motivo que leva a essa redução, tem na sua base “as inúmeras campanhas e a própria consciência das pessoas”. Contudo, aumentaram o consumo de haxixe e de novas drogas sintéticas, como o LSD ou o ecstasy. Segundo nos confessa Ribeiro Neto, “as pessoas ainda têm a ideia que o haxixe é uma droga dita leve, que não causa habituação e que não perturba”. Quanto às drogas sintéticas, “elas surgem como a droga da moda, se bem que elas circulam, pelo menos aqui na cidade do Porto, num contexto muito restrito”. Os principais consumidores destas drogas são, acima de tudo, jovens com um nível cultural acima da média.

Como se lida com o problema?
Se compararmos esta problemática ao nível das cidades Porto e Lisboa, as realidades são bem distintas. Ribeiro Neto salienta mesmo que, “aqui no Porto vende-se e consome-se crack, coisa que, em Lisboa não se encontra”. Por outro lado, também a actuação da PSP se faz sentir de forma diferente, pois as realidades criminais e preocupações relativas à densidade populacional são manifestamente desproporcionais. A esse respeito, o chefe do núcleo de investigação policial do comando da PSP do Porto é de opinião que “é necessário sabermos conversar, sabermos abordar as pessoas de forma diferente, de forma a podermos intervir sem grandes dificuldades”. As próprias organizações grupais, responsáveis pela venda de estupefacientes, também se vão adaptando aos mecanismos de controlo do crime, proliferando e, cada vez mais, utilizando os jovens para os seus negócios. É nesse sentido que “devemos saber abordar o problema, pois a sua dinâmica impõe actualização imediata e uma capacidade de intervenção táctica cada vez mais eficiente e actual”.
Isto porque, em termos sociais, esta é uma questão muito complexa com que a polícia tem que lidar, ou seja, regra geral, ninguém fica indiferente sempre que um agente da autoridade aborda um alegado consumidor/potencial traficante. E, isso acontece porque, nas palavras de Ribeiro Neto, “este é um meio que nos é difícil e que não nos favorece, tanto mais que nós temos que desenvolver empatias com os toxicodependentes”. Por outro lado, o próprio toxicodependente não olha o polícia como alguém que está ali para o ajudar; ele ainda é encarado como um vilão, ou seja, “a nossa imagem ainda está associada àquilo que representa, ainda hoje, em Portugal, a palavra polícia”. Questionado se, a polícia «ainda» é o mau da fita, Ribeiro Neto confessa que “temos tentado, aos poucos, mudar essa imagem e, alegro-me por dizer que o temos conseguido”. Para além disso, “os próprios consumidores já começam a conhecer-nos e, muitas das vezes, já são eles que nos pedem ajuda”.

A formação como uma mais valia
Para que a actuação da polícia seja eficiente e obtenha resultados positivos e/ou satisfatórios, é necessário, para além da força de vontade e muita dedicação, “um empenho por parte de toda a equipa, que eu sei que existe”, refere Ribeiro Neto. Por outro lado, isso só é possível mediante o cumprimento de determinados objectivos, “estipulados por nós, logo à partida nas nossas acções de formação”. Esta é, certamente, uma mais valia, não só para este núcleo de investigação policial do comando da PSP do Porto, como para os restantes. E, no que à formação diz respeito, Ribeiro Neto confessa que “temos a preocupação de indicar aos nossos profissionais, que os consumidores têm que ser encarados, não como criminosos, mas como alguém que precisa mais de apoio do que de repressão”, acrescentando que, “isto funcionou positivamente, uma vez que nós, hoje, fazemos transpor para a sociedade, uma imagem diferente daquilo que é o polícia e de qual é o nosso papel na sociedade”, apesar de, por vezes, “o consumidor continuar a olhar para nós e ficar desconfiado, ao ponto de não saber se o vamos ajudar ou se vamos intervir de uma forma mais agressiva”. Para além disso, o chefe do núcleo de investigação policial do comando da PSP do Porto refere que, “aos nossos profissionais são ministradas acções de formação ao mais diverso nível, seja relativas a políticas de reinserção social, seja relativas a questões de abordagem psicossocial do problema da toxicodependência, ou até mesmo relativas a abordagem operacional do fenómeno no terreno”. Isso faz com que os profissionais da PSP sejam capazes de fazer a distinção entre “quem é o consumidor e quem é o traficante”, de igual forma que conhecem aqueles que “são consumidores/traficantes”.

Prevenir e informar
Mais do que reprimir, cabe às nossas forças de autoridade, informar e manter informado o público. A esse respeito, também a prevenção ocupa um lugar de destaque na vida destes profissionais e, ao contrário do que acontecia antes da despenalização do consumo, a prevenção do consumo, hoje em dia, segundo nos conta Ribeiro Neto, “faz-se com visibilidade policial e não com trabalho de investigação criminal”. Daí que, Ribeiro Neto confesse que “a investigação criminal, na área da toxicodependência (consumo), tem alguma dificuldade a fazer prevenção”, salientando que, “a prevenção no local de venda de droga, faz-se com homens fardados a invadir esses mesmos locais e, paralelamente, desenvolvemos toda uma metodologia operativa desenvolvida através de acções processuais cujo desenlace operacional culminará o trabalho de investigação criminal sustentando acusações formais por parte do Ministério Público e, em última instância, a condenação dos prevaricadores, erradicando deste modo aquele foco”. A título de exemplo, Ribeiro Neto refere o bairro da Sé, quando havia enormes filas para comprar droga. Agora, esse panorama já não acontece, “muito devido ao nosso trabalho de investigação e ao contínuo trabalho de patrulhamento que tem sido feito no bairro”. Por conseguinte, com as dificuldades que foram criadas, as pessoas deixaram de se aproximar desses locais de compra e passaram a ir para outros locais. Isso, Ribeiro Neto considera que é “um trabalho de prevenção na compra e no consumo de drogas”.
Outras campanhas de informação e prevenção que a PSP realiza estão orientadas para públicos alvo, como seja, nas escolas ou nas universidades, entre outros, em que estes agentes são convidados a intervir e a apresentar/debater determinados temas ligados a esta problemática. Segundo Ribeiro Neto, “nós estamos ali a falar sobre um assunto que os preocupa e, mais importante do que isso, estamos a falar sobre o que nós vivemos, vemos e presenciamos”. Acções deste género só são possíveis “porque, felizmente, começámos a trabalhar por objectivos”, refere Ribeiro Neto, acrescentando que “ainda temos, no entanto, um caminho muito grande a percorrer em que só este esforço multidisciplinar poderá ter eficácia no âmbito da prevenção ao consumo de estupefacientes”.
Um dos projectos no qual a PSP também abraçou, apesar de não ter sido de sua autoria, foi o projecto «Porto Feliz». Criado pela Câmara Municipal do Porto, este projecto visava retirar da rua, todos os arrumadores de carros, muitos deles, toxicodependentes e, traçando um balanço inicial muito positivo, Ribeiro Neto é de opinião que “foi feito um esforço muito grande, por parte de muita gente, para se erradicar um fenómeno que incomoda as pessoas”. No entanto, o chefe do núcleo de investigação policial do comando da PSP do Porto alerta para o facto de, este programa ter que ser feito “com muita sensibilidade porque, primeiro, a prevenção policial não pode ser tão objectiva quanto as pessoas desejariam e, depois, é necessário sabermos conjugar a realidade processual penal com a realidade social, em que, o falar com as pessoas, é essencial para se perceberem os objectivos conjecturais das medidas de polícia; nós temos que falar, não como polícias, mas como pessoas que todos nós somos”.
Questionado acerca da possibilidade de, um dia, as drogas poderem ser aniquiladas da sociedade, Ribeiro Neto é peremptório e afirma que não, tanto mais que, “todos nós sabemos que a droga alimenta muitas economias mundiais e envolve milhões de euros”. Por conseguinte, “é necessário continuarmos a trabalhar com o mesmo afinco com que temos trabalhado, no sentido de determos o maior número possível de traficantes e apreendermos o maior volume de estupefacientes possível”. Por tudo isto, será escusado dizer que os projectos são mais que muitos e, Ribeiro Neto confessa que “vamos continuar, nos bairros do Aleixo, da Sé, S. João de Deus, Cerco e Lagarteiro, a causar muitas baixas” e, para além disso, “a área metropolitana do Porto vai continuar a sentir a nossa acção”, conclui.

Entrevista

Brevemente, vou colocar aqui uma entrevista que fiz ao comissário Ribeiro Neto, chefe do núcleo de investigação policial do comando da PSP do Porto.

Epidemia de blogs


São quase 410 mil weblogs ao redor do mundo. Este é o registro feito pelo Weblog Crawl Report, uma iniciativa que procura identificar blogs ativos em diversos idiomas. Os blogs em língua portuguesa só perdem em número para os de língua inglesa.
Segundo o Weblog Crawl Report, o "ranking" fica assim:
1º: Inglês: 211.631 blogs;
2º: Português: 43.178;
3º: Polaco: 37.559;
4º: Espanhol: 7.048;
5º: Alemão: 6.060;
6º: Italiano: 5.202;
7º: Francês: 4.680.

Vai ser publicado no jornal O Primeiro de Janeiro, na próxima 2ª feira, 14, o seguinte artigo:


A hora dos jovens criadores


Em exibição até ao próximo dia 24 de Agosto, no Museu Municipal Amadeu de Souza-Cardoso, em Amarante, o Salão Europeu de Jovens Criadores é uma exposição itinerante de arte contemporânea que reúne três núcleos de obras de Portugal, França e Espanha.

Tudo é tudo ou nada é nada; é conforme. Devaneios do passado, sonhos de infância perdida, futuro suspeito. São estes os temas favoritos em resposta à incerteza actual neste salão europeu. Interactividade, trocas, a arte deixou de ser o apanágio do museu e do coleccionador. Não é o proprietário de ninguém; apenas de um espírito tentador: o tempo. Segundo Nicole Ginoux, directora artística e comissária geral do salão, “aqui se podem experimentar as mesmas inovações, as mesmas preocupações e o mesmo desejo de comunicação”, salientando que, “as técnicas utilizadas adaptam-se desde o imaginário, até ao imagético do criador, concedendo espaços a acentuados conceitos de uma iconologia pessoal, por vezes, dificilmente perceptível”.
É necessário, então, observar a relação interactiva entre a obra de arte e o espectador; uma espécie de imediação e de participação parece necessária, tanto a um, como a outro. Efectivamente, a arte europeia tem tendência para se uniformizar; para se universalizar.

Inauguração
Inaugurado no passado dia 5 de Julho, o Salão Europeu de Jovens Criadores trouxe à cidade de Amarante alguns notáveis das artes, não só portugueses, como também franceses e catalãos. Em jeito de abertura, António Cardoso, director do museu referiu mesmo que, “Amarante entrou na rota das artes ao se aliar a este projecto europeu”. Com efeito, esta é a única cidade portuguesa a representar este certame, a par de Sant Cugat del Vallès (Catalunha) e Montrouge (França).
Paralelamente a isso, Maria de Fátima Lambert, comissária portuguesa do salão, destacou a importância que este acontecimento reveste “para o panorama cultural da nossa cidade e do nosso país”.
Por forma a ser continuado este projecto, “porque de ano para ano temos cada vez mais participantes a aderir e, mais público interessado”, tal como confessou o director do museu, a organização decidiu – à semelhança de anos anteriores –, premiar um dos trabalhos presentes nesta exposição. Para além disso, o Grupo de Amigos do Museu Amadeu de Souza-Cardoso, decidiu atribuir um outro prémio, no valor de 250 euros, ao artista espanhol Juan Medina, com o trabalho «Deformando el lenguaje». No entanto, o grande vencedor desta edição do Salão Europeu de Jovens Criadores, foi o catalão Jaime Pitarch, com o trabalho «Entramado de tiras de papel». Trata-se da montagem de um mapa mundo através de tiras de papel, passadas previamente por uma máquina de destruir papel. Para além do prémio monetário, Jaime Pitarch vai poder organizar uma exposição individual, paralela ao salão europeu do próximo ano.

Arte em português
Para além dos artistas espanhóis e franceses, também este evento contou com a participação de portugueses. Desde espelhos e acrílicos, passando por trabalhos em madeira e fibras de vidro, fotografias e vídeos e, ainda, trabalhos à base de óleos, papel vegetal, tecidos, algodões e materiais sintéticos, os doze artistas portugueses que aqui estão presentes são, Rita Carreiro, André Cepeda, António Júlio Duarte, João Galrão, Brígida Mendes, Marta Moreira, Duarte Amaral Netto, Sandra Quadros, Paulo Quintas, Ana Rito, Avelino Sá e Catarina Saraiva.

SOS Racismo

De entre os vários trabalhos que foram publicados no passado sábado, no jornal O Primeiro de Janeiro, a propósito do tema "Minorias Étnicas", destaco aqui uma entrevista que efectuei a alguns associados do SOS Racismo.

Combater a ignorância

São conceitos como, racismo, xenofobia, discriminação ou tolerância que faz com que os associados do SOS Racismo não parem de trabalhar. Em mente, apenas um único objectivo: promover uma sociedade em que todos tivessem direitos iguais.

Tudo começou em 1989, com o assassinato de José Carvalho por parte de um grupo de skinheads. Nessa altura, José Falcão encontrava-se com José Carvalho e assistiu a tudo. Inclusive, “poderia ter sido eu”. Seguiram-se outros assassinatos que haviam começado em 1986 até que, um grupo de amigos, cansados, decidiram juntar esforços, coragem e criam, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, a 10 de Dezembro (de 1990) a ideia base que presidiu à criação do SOS Racismo. Essa ideia, foi a de lutar contra todos aqueles que procuram viver num mundo fechado, intolerante e irracional. Para isso, foi iniciada a luta contra o racismo e a xenofobia em Portugal, promovendo-se, ao mesmo tempo, a criação de uma sociedade em que todos os cidadãos tivessem direitos iguais.
Ora, Portugal sempre foi considerado um país de brandos costumes; nunca até então se conheciam casos de comportamentos e/ou atitudes racistas por parte dos portugueses. Pelo menos, a comunicação social não os havia denunciado. Dessa forma, segundo nos conta José Falcão, o rosto visível do SOS Racismo, “fazia pouco sentido, nessa altura, discutirem-se esses «mitos», principalmente, para o poder político”. E, por isso, esta associação sempre primou pela sua independência. E, também por isso, esta é uma daquelas associações que não possui umas instalações por aí além. Contrariamente, o «cubículo» que serve de sede ao SOS, não oferece as mínimas condições de trabalho e, por bem pouca que seja a chuva que cai, lá dentro, fica-se com a sensação de que um novo dilúvio vem por aí, tal é a quantidade de água que escorre pelas paredes e pelo tecto.
Quase 13 anos depois de intenso trabalho, esta associação tem vindo a crescer e, hoje em dia, para ir ao encontro dos seus objectivos de luta, têm realizado diversas actividades de sensibilização, tendo em vista combater a ignorância, uma vez que é ela que está na base do racismo e da xenofobia em qualquer sociedade. Uma vez que a violência não se combate com mais violência, a intervenção do SOS Racismo desenvolve-se a partir de três formas. Desde logo, junto das escolas, das universidades, dos bairros, ou mesmo, junto de outras associações, através da participação em actividades desenvolvidas por elas, nomeadamente a participação em debates e a elaboração de material que permita abordar o problema do racismo em Portugal. Nestes debates, acima de tudo, mais do que transmitir o que quer que seja, José Falcão confessa que “o que é essencial, é pôr as pessoas a pensar pela sua própria cabeça”.
Uma outra forma de trabalho, é através do apoio jurídico que é prestado em situações concretas de discriminação, bem como a produção de materiais informativos sobre os direitos dos cidadãos, que têm por objectivo, não só que todos saibam quais os seus direitos mas também como os podem fazer valer. Aliás, é na produção destes conteúdos, nomeadamente, livros (Ver caixa), que a SOS vai buscar a maior parte das suas receitas.
Por último, através de tomadas de posições públicas contra todos os actos racistas, ou que promovam o racismo em Portugal. Exemplo disso, tal como nos conta Mamadou Ba, outro dos associados do SOS, “é a total hiprocrisia que se assiste, a par de uma total impunidade por quem de direito, sempre que os nossos agentes da autoridade, se fazem valer da violência policial”, acrescentando que “em Portugal existe um racismo institucionalizado”. Associada a estas tomadas de decisão, o SOS dedica-se, ainda à apresentação de medidas concretas que permitam combater o racismo e a xenofobia, através de comunicados de imprensa, envio de cartas e/ou de petições que são enviadas aos membros do Governo ou à Assembleia da República. Ao nível das contrapartidas obtidas por todo esse trabalho, Mamadou Ba destaca a Lei contra a Discriminação Racial, que foi proposta pelo SOS Racismo e que foi aprovada pelo Parlamento em 1999.
A Festa da Diversidade, uma das actividades levadas a cabo pela Rede Anti-Racista (da qual o SOS faz parte), no passado mês de Junho, levou muitas pessoas ao Martim Moniz, em Lisboa. Tratou-se de um espectáculo que, segundo Susana, outra associada do SOS, “tinha como slogan, «Um outro mundo é possível» e que, para além de muita música, gastronomia e artesanato, também a dança e a animação de rua, estiveram presentes”.
Com todo este trabalho já desenvolvido, José Falcão perspectiva o futuro com “muito mais trabalho; queremos elaborar mais material didáctico e queremos continuar a lutar por um país mais justo e menos racista”.

Coca da Boa

Depois de um dia de trabalho carregado de stress, nada melhor do que um pouco de... Coca da Boa. Segundo os seus autores, brasileiros, claro, o Cocadaboa é aconselhável apenas para maiores de 18 anos, uma vez que o seu conteúdo é 100% humorístico e/ou mentiroso. E perguntam: "Quer nos processar? Boa Sorte! Nosso site está hospedado na Eslovénia".
Não esquecer a versão blog do Cocadaboa onde existe, segundo eles, "a toda a hora, uma merda nova e, a qualquer momento, um babaca lendo"...
Isto promete...


A não perder é, também, O Meu Pipi... É de morrer a rir!!! E, para mim, este blog tem a mão de Rui Zink. Não sei porquê. Vejam e digam qualquer coisa...

Vai ser publicado amanhã, dia 7, no jornal O Primeiro de Janeiro, mais um suplemento dedicado à toxicodependência.
Dos vários textos que efectuei, decidi colocar aqui dois. Trata-se de um resumo do que foi, respectivamente, o 1º e o 2º painel da conferência subordinada ao tema "O papel da comunicação social na luta contra a toxicodependência" e que foi organizada pelo jornal em parceria com a Câmara Municipal do Porto. Ver post do dia 1 de Junho.
Aceitam-se comentários...

Uma vez lançado o «pontapé de saída», é fundamental responsabilizar a sociedade e...

Procurar parcerias com os media

Neste primeiro painel procurou-se abordar inúmeras questões; desde logo, saber o que faz, de facto, um jornalista, passando pela prevenção propriamente dita, pelo desporto, pela responsabilização dos órgãos de comunicação social, entre muitos outros temas.

Contando com a presença de Salvato Trigo, reitor da universidade Fernando Pessoa, Maria Moreira, do IDT, António Gonçalves Pereira, presidente do conselho de justiça da Associação de Futebol do Porto e, Fernando Martins, provedor do leitor no Jornal de Notícias, este primeiro painel foi coordenado por Fernando Mendes, vice-presidente do IDT que confessou que “espero que estes trabalhos nos conduzam a uma nova esperança”. A grande questão partiu da forma “como a comunicação social utiliza os dados que lhe são fornecidos, pois é possível trabalharmos em conjunto, em prol de um mesmo objectivo”.

Maria Moreira, especialista em gestão de sistemas de informação fez questão em salientar que, “é a partir do conhecimento que se pode fazer prevenção” e, nesse sentido, é de opinião que “os jornalistas querem informação; nós queremos dá-la mas, muitas vezes, temos medo de a dar, porque não sabemos como é que esses dados vão ser tratados”. Daí que defenda a ideia que deverão ser os jornalistas “a ajudar-nos a nós, técnicos no terreno, acerca da melhor forma de poder passar a informação”. E, isso, vem a propósito do mecanismo de alerta para as novas drogas sintéticas, uma vez que “a postura dos media não tem sido a mais correcta”, acrescentando que “o levantamento de questões sobre novas drogas sintéticas, cuja influência negativa não esteja comprovada ao nível da saúde pública, poderá ter o efeito perverso de despertar a curiosidade dos consumidores”. Para além disso, Maria Moreira atribuiu aos media, “uma responsabilização social, uma vez que ela molda muito o que é a realidade social e, um enorme serviço que ela poderá prestar à sociedade, é passando uma informação rigorosa, baseada em contextos rigorosos”.

Por seu lado, Salvato Trigo, colocando-se na posição de alguém que tem a responsabilidade de formar agentes da comunicação, dita social, salientou que “a comunicação social deixou de o ser há mais de um século, uma vez que passou a ser uma mercadoria de consumo corrente, a partir do momento em que se tornou um dos elementos mais poderosos da chamada «economia da libido»”, ou seja, “satisfazer-se a curiosidade dos consumidores”. A propósito da função educativa que muitos transpõem para os media, Salvato Trigo confessa que “a comunicação social não tem essa função, não a pode, nem deve ter”. Por conseguinte, “a sua intervenção deve ser feita nos consumidores, para os tornar consumidores esclarecidos, educados e, para que eles saibam consumir e não consumam «porcaria»”. Dessa forma, “se não se consumir «porcarias», como estamos numa lógica de mercado, a «porcaria» deixa de poder sustentar-se”, acrescentou. Sendo Portugal “um país de opinião publicada, em vez de opinião pública”, Salvato Trigo afirmou que “um país sem opinião pública não consegue consolidar uma Democracia, porque a Democracia só se consolida com uma opinião pública esclarecida no consumo e não na produção”.

António Gonçalves Pereira, reportando-se ao papel que o desporto deve ter na vida activa de qualquer cidadão, salientou a importância da prática desportiva na recuperação e reabilitação de um toxicodependente, na medida em que “incentiva o trabalho de equipa, permite o contacto com outras experiências, ajuda na saúde e na criação de novas amizades, para além de criar afectos que, no fim de contas, é o que se pretende para um cidadão recuperado”. Paralelamente a isso, António Gonçalves Pereira alerta para o papel que a prevenção deve ter, não esquecendo de se “associar a prevenção na adolescência, por via da prática desportiva”, acrescentando que “trata-se de algo muito importante que não tem sido veiculado com muita frequência”.

Por fim, Fernando Martins, confessando que, “a comunicação social não tem, nem deve ter, a função de educar quem quer que seja; é para isso que serve a família e a escola”, salientou que “os jornalistas não são mais do que um espelho da sociedade que servem” porque, ao fim de alguns anos de exercício, “é o próprio público que acaba por moldar os jornalistas”, tanto mais que a profissão em si foi sujeita a inúmeras evoluções, “tendo passado o jornalista de um «sujeito da anunciação» para um «sujeito anunciado»”. Ou seja, no início, o jornalista “era a discrição em pessoa e, sempre que era necessário fotografar, evitava-se ao máximo que o jornalista aparecesse na fotografia”. Hoje em dia e, com o passar dos anos, “os ouvintes, os leitores e os telespectadores passaram a querer outra coisa dos jornalistas”, acrescentando que “toda a gente atribui grandes responsabilidades à comunicação social, esquecendo-se que sois vós que estais desse lado e que sois os consumidores finais, que tendes a obrigação, através da vossa exigência, de formar as novas gerações de jornalistas”.




Moderado por Nassalete Miranda, directora do nosso jornal, lançou-se a pergunta: qual é, afinal...

O papel da comunicação social?

Partindo do princípio que, “o papel da comunicação social é todo aquele que o resto da sociedade nos quiser impor, sendo este um papel que tem a ver com toda a sociedade”, Nassalete Miranda referiu-se a um papel de intercomunicabilidade que envolve toda a sociedade.

Considerando que, “no âmbito da toxicodependência, este é um papel que é transversal a toda a sociedade”, Nassalete Miranda destacou, ainda, a importância da família, da escola, do trabalho, do lazer e, também da comunicação social.

Este segundo painel contou com a presença de Mota Cardoso, psiquiatra e um dos responsáveis pelo projecto «Porto Feliz», Miguel Coleta, responsável pela comissão de saúde da Assembleia da República e deputado do PSD, Victor Fonseca, jurista e coordenador do suplemento mensal editado pelo nosso jornal, «Justiça e cidadania» e, João Palmeiro, presidente da associação da imprensa não-diária.

Mota Cardoso iniciou esta palestra e, salientando que “existe um brutal paradoxo em relação às questões da droga no nosso país”, referiu que “Portugal está preparado com técnicos e com equipamentos mas, o problema da droga está a crescer cada vez mais, tendo-se verificado um aumento do número de traficantes e de consumidores”. Paralelamente a isso, Mota Cardoso destacou os problemas da legalização e/ou da despenalização das drogas, assim como a sua criminalização. A esse propósito referiu que “existe um conjunto de saberes e que derivam da complexidade deste fenómeno que temos pela frente e que fomenta opiniões, quase sempre divergentes”.

Para além disso, salientou que “Portugal tem-se esquecido de um problema descomunal e que tem a ver com o facto de termos dois milhões de bebedores excessivos e, por outro lado, existem cerca de 700 alcoólicos crónicos com doenças somáticas irreversíveis”, ou seja, em cada 10 portugueses, 2 são bebedores excessivos e, “desses dois, um é jovem, o que agrava a situação”, acrescentou. Paralelamente a esse consumo de álcool, verifica-se também um cada vez maior consumo de outras substâncias ilícitas. A grande questão, tem a ver com as causas e, nesse sentido, Mota Cardoso é de opinião que “na altura de se implementar uma solução, entretanto criada, para um dado problema, ela já é bem maior do que o problema da qual partiu essa mesma solução”.

Por outro lado e, referindo-se à actuação da comunicação social no que diz respeito à cobertura que tem sido dada ao programa «Porto Feliz», Mota Cardoso afirmou que “os mais de 200 arrumadores que conseguimos recuperar tiveram um sentido ético e estético da vida e um senso moral mais perfeito do que alguns dos jornalistas que aderiram ao projecto”, acrescentando que, “eles aí estão em formação profissional, a ser cuidados e a refazer as mazelas das suas vidas e das suas personalidades”.

Por seu lado, Miguel Coleta, defendendo que, “apesar de, a comunicação social não dever ter uma função educadora, ela cumpre essa mesma função a vários níveis, quando muita da informação nos chega através dela”. No entanto, “temos que perceber que o papel que a comunicação social tem é importantíssimo e que, na maioria das vezes, ele é cumprido com muito ruído”, acrescentando que “temos que concordar que existe no nosso país, muito bom jornalismo e muita informação séria”. Apesar disso, Miguel Coleta e, falando em concreto da toxicodependência, salienta que “nós temos um problema em termos de visibilidade pública do fenómeno, uma vez que, à medida que estas questões se forem controlando, elas vão-se banalizar em termos mediáticos, até chegar ao ponto de deixar de ser notícia”.

Victor Fonseca, dada a sua experiência no «Justiça e cidadania», confessou que “a comunicação social passou a ser um modo claro de controlo de poder, político, público e económico”. Por conseguinte, “controla-se a sociedade e as suas vontades”, tanto mais que “as democracias modernas vivem emparedadas entre as televisões, a sociedade/informação/espectáculo e, daí, ser necessário retomar um conceito formativo no jornalismo, nomeadamente, nas questões sociais”, uma vez que são essas mesmas questões que têm a ver com “os direitos, liberdades e garantias e, com os conceitos de cidadania e da sociedade”.

Por último, João Palmeiro salientou que “a técnica de comunicação que devemos utilizar, passa por vários factores, como seja, a qualidade de conteúdos”. A par disso, existe o marketing da notícia pois, “vivemos numa comunidade que tem um mercado de informação” mas, o paradigma das novas tecnologias e da electrónica também devem ser tidos em conta, uma vez que João Palmeiro é de opinião que “é para o futuro que nós temos que olhar e saber como é que vamos enfrentar este novo paradigma”.

Eles disseram que...
“Nós dizemos aos outros aquilo que podemos dizer; raramente dizemos aquilo que queremos dizer; e, nunca ou quase nunca, dizemos aquilo que devemos dizer”
“A comunicação social deve informar, formar, educar, opinar no seu espaço próprio; não deve é substituir-se àqueles que têm que fazer política nesse sentido”
“Muitos órgãos de comunicação social transformaram-se num órgão político ilegítimo”
“A maior parte da comunicação social que nós temos, vive à margem da democracia”

Mota Cardoso
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“Para os políticos é sempre um prazer comentar o trabalho dos jornalistas”
“O problema da toxicodependência vai continuar sempre a existir e, o caminho a seguir é no sentido da prevenção primária, sem esquecer o trabalho da família e da comunidade”
“Aos jornalistas deve-se exigir ética e rigor no tratamento que fazem da informação; aos políticos, deve-se exigir seriedade e determinação”

Miguel Coleta
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“Temos de perspectivar o combate contra a toxicodependência, na ideia de estarmos no século XXI e, numa perspectiva societária e de enquadramento social”
“Formar é contribuir para que o espectador possa entender a sociedade”
“Se o Estado se demitir de combater o narcotráfico, está a demitir-se da sua função fundamental de protecção da sociedade”
“O combate à toxicodependência é um combate diário, preventivo e repressivo contra o tráfico e contra os traficantes”

Victor Fonseca
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“O serviço público e o interesse público são chavões para não chegarmos a conclusão nenhuma”
“Não vale a pena formar jornalistas que saibam noticiar questões da droga se eles não tiverem espaço para escrever ou para falar”

João Palmeiro

O jornal O Comércio do Porto completou esta segunda-feira, 149 anos "entrando assim no primeiro dia do seu século e meio ao serviço da informação", tal como escreve no editorial, a directora-interina, Fátima Dias Iken.
Para todos os meus colegas de profissão e não só, os meus parabéns...

Para quem se queira informar e/ou inteirar:

Manual do Jornalismo, por Anabela Gradim - Universidade da Beira Interior

Mais uma vez, estou sem o sistema de comentários. O motivo deve-se ao facto de, o servidor onde estava hospedado o sistema de comentários, estar fora do ar. Vamos ter que aguardar...

Decorreu ontem, no Palácio do Freixo, uma conferência subordinada ao tema "O papel da comunicação social na luta contra a toxicodependência", promovido pelo jornal O Primeiro de Janeiro, em parceria com a Câmara Municipal do Porto.

A "concorrência" também esteve lá e disseram de sua justiça.
o JN disse isto;
O DN disse isto;
E, o Público disse isto.

Vai ser publicado este sábado um especial dedicado ao concelho de Arganil, no jornal O Norte Desportivo. De entre os textos que foram feitos por mim, destaco este, da freguesia de Benfeita que, depois do Piódão, é a mais bonita do concelho. Espero que gostem do texto...

Abençoada pela natureza


“Tenho por graça, essa graça feia. Fonte das moscas, é demais grotesca. Porém, ao povo desta minha aldeia, eu pago a graça, dando-lhes água fresca. E, ao visitante que até mim chegar, sacio-lhe a sede, fico satisfeita e dou-lhe ainda, para admirar a minha aldeia, a linda Benfeita”.
Fernando Ferreira, 1985


Conta-se que há muito tempo atrás, o nome desta povoação seria Valverde, termo atribuído devido ao aspecto concedido pela baixa de castanheiros que envolvia o aglomerado populacional. A «estória» continua, embora com algumas variantes, que a mudança da designação se deve a uns senhores, donos de um castelo das proximidades, que quando avistaram uma capela (a de Santa Rita, para uns; a da Senhora da Assunção, para outros), ficaram deslumbrados e exclamaram: “Quem bem feita!”. Esta expressão foi ficando e, as casas da localidade e as que aí se erguiam, passaram a ser conhecidas por Benfeita. Todavia, na realidade, aquele termo deverá relacionar-se com um vocábulo oriundo do verbo benefacere ou outro equivalente, que foi sofrendo transformações. Daí resultou uma gradual adulteração, até que chegou à palavra Benfeita, como hoje nos surge.
É do alto da fonte das moscas que se obtém a melhor visão da freguesia. E é, com a água que ali corre que nos refrescamos e nos refugiamos do calor abrasador.
António Quaresma Martinho, aos 70 anos de idade, está no seu segundo mandato como presidente da junta de freguesia. Depois de uma vida passada na África do Sul, decidiu voltar e trabalhar em prol da sua terra. Ao fundo da fonte das moscas, à sombra de um chorão que, alguém, ali plantou já lá vão uns bons anos, conta-nos que Benfeita é terra muito antiga. Com efeito, os primeiros documentos conhecidos, datam de 1195 e tratam da compra desta terra por Pedro Salvador que, mais tarde, a doou aos bispos de Coimbra, que lhe deram foral a 17 de Maio de 1300. É terra conhecida pela indústria artesanal das colheres de pau que transformam pequenos pedaços de madeira num utensílio útil para as práticas culinárias. A Benfeita é também uma terra de grande beleza paisagística. Acolhe dentro de si dois locais dos mais belos deste concelho de Arganil: a Mata da Margaraça e a Fraga da Pena, de que falamos mais à frente.
Vasco Campo, a 21 de Março de 1989 escreveu: “Benfeita dos olmos verdes e ribeiros cristalinos. Tem bençãos de amor e paz, no doce tanger dos sinos”, referindo-se à Torre da Paz. Construída logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, em 1945, baptizada de Torre Salazar, a torre que coroa a aldeia, passou a chamar-se Torre da Paz após o 25 de Abril de 1974. António Quaresma Martinho diz-nos que, todos os anos, no dia 7 de Maio, pelas 14 horas, o terminus desta guerra, a torre está programada para dar 1620 badaladas, tantas quantas os dias que a guerra durou. Diz quem já ouviu que é um espectáculo auditivo e que dura aproximadamente duas horas. Será no âmbito do Programa das Aldeias do Xisto, que a aldeia de Benfeita irá ser recuperada. Para começar, a Torre da Paz já se encontra completamente remodelada. Depois, seguir-se-á a pavimentação de todas as ruas da aldeia e as infraestruturas para águas pluviais. As alterações também se farão sentir na electricidade e nos telefones, na medida em que todos os fios serão subterrâneos. De referir que, este projecto, previsto para dois anos, teve o seu arranque no ano passado e já se encontra parcialmente adjudicado.


Uma paisagem única


Aqui se separam as beiras, num alinhamento serrano, da Estrela até à Lousã. À dita fria, alta e nevosa, não sobem com frequência os de cá do fundo, para a conhecer. Recebem novas pelo vento que lhes ajoelha o milho e pela água das enxurradas bruscas de Outono.
A serra do Açor escolhe os mais fortes, nas temperaturas dos seus cumes que acolhem o ar húmido na sua longa viagem sem barreiras, desde o oceano, elevando o teor de humidade atmosférica a criando um misterioso cenário de névoas. Os seus vales são enormes. Profundos. As encostas, despidas nos seus cabeços, num alinhamento interminável. A água que cai na serra do Açor, separa-se temporariamente, para ser conduzida pelo Alva ou pelo Ceira, rumo ao reencontro no Mondego. No Ceira, viaja num vale apertado, cultivado aqui e ali em pequenas e estreitas insuas; no Alva, junta-se-lhe a água das ribeiras da Mata – na Várzea de Coja e de Folques –, vale de Arganil, para um caminho pontuado de salgueiros, amieiros e freixos, barbos, enguias e trutas, moinhos, lagares e levadas, que levam água à terra sequiosa, incapaz de a armazenar em quantidades suficientes para que as culturas se desenvolvam.
Cada milímetro de terra de cultivo é uma conquista do esforço, do engenho e saber das gentes. Suportadas por muros de xisto, os fragmentos das encostas da serra vão dando, geração atrás de geração, couves, feijão, milho em folhas compartimentadas pela vinha ou pelo olival. É a água que faz mover todo este sistema, nas levadas engenhosamente construídas nos poços, tanques, noras, açudes, picotas; enfim, tudo o que a disponibilize, com a deferência que merece algo gerido colectivamente, partilhado no estio, com base em regras gravadas na memória. O xisto talhado, que após o primeiro Inverno, tanto parece ter um ano como um século, ajudou à integração dos aglomerados urbanos na paisagem envolvente mas, com o avançar do progresso, a abordagem estética ao assunto foi-se alterando, as influências exteriores foram sendo mais efectivas, assistindo-se hoje a uma amálgama cromática, formal e textural em grande parte das aldeias da serra do Açor.
A Benfeita encerra, em si, a magia de um posto avançado, de uma fronteira. Seja qual for a rota escolhida para lá chegar, continuar em frente é entrar numa realidade progressivamente diferente. Pormenorizando, se para trás tivermos deixado Arganil, o Vale do Alva, Secarias, a várzea de Coja, o Pisão e a Dreia, entramos na Benfeita pelo lado Norte, pela zona mais baixa, acompanhando a ribeira da Mata, pela sua margem direita, nunca subindo acima dos 300 metros de altitude. Foi o percurso que escolhemos e é essencialmente marcado pelos campos de cultivo associados às linhas de água e com um incontornável ponto de referência na paisagem, que é o espaço urbano da vila de Coja. Por outro lado, se descobrirmos Benfeita por Sudeste, quer dizer que para trás ficou um percurso em que os valores paisagísticos são fundamentalmente naturais, traduzidos pelo património natural em si e pelas relações panorâmicas inerentes às áreas serranas. Por este lado, desperta-nos os sentidos, a frescura, o movimento e o som da água na Fraga da Pena, o cheiro das giestas e urzes na serra, a cor, a diversidade, a tranquilidade da Mata da Margaraça e o sabor do medronho e do mel no Piodão. Foi este o percurso que fizemos, ao abandonarmos Benfeita.
Por tudo isto e mais alguma coisa e, sofrendo um efeito de orla que a valoriza, Benfeita está, assim, no sítio ideal. Vai buscar urbanidade a um lado e, ruralidade e naturalidade, a outro. O todo resultante é um equilibrado quadro, alvo nas construções que, suave e tranquilamente, se envolve no verde e nos dois cursos de água que se fundem no seu seio, servindo-se do milho, do xisto e da oliveira.
É a meados do mês de Agosto que tem lugar a festa de Nossa Senhora da Assunção, que será talvez uma das mais concorridas e, apesar das festas não terem os mesmos preparativos de antigamente, ainda se mantem a mesma animação. Um dos jogos típicos destas alturas e desta freguesia, é o galo, em que o animal é atado para não voar e, os concorrentes, com os olhos vendados, o tentam matar. No final, todos fazem um petisco. Tradicionalmente, realiza-se, também, a subida a um tronco de eucalipto, que tem, no cimo, um bacalhau. Igualmente, fazem-se outras actividades, como corridas em sacos, de bicicleta e campeonatos de futebol.

Quem fala assim...


Texto de Diana Andringa:

... se no tempo do fascismo nos batíamos contra os 6 meses de prisão preventiva, devemos achar normal os anos de prisão preventiva hoje existentes?
... se no tempo do fascismo nos batíamos contra a tortura do sono e os interrogatórios nocturnos, devemos achar normal que alguém, mesmo suspeito de pedofilia, seja interrogado noite fora, e que o advogado assinale um intervalo entre as 2 e as 4 da manhã?

Ou seja: em nome de que são acusados de delito comum, não de delito político, devemos ser indiferentes aos excessos nos interrogatórios e nas prisões?
Ou seja: num Estado de Direito, deixam de fazer sentido garantias que antes considerávamos exigíveis?

Com o devido respeito pelos juízes, o exemplo de Itália não devia fazer tocar algures na nossa cabeça uma campaínha de alarme?

(Aos que são jornalistas deixo duas perguntas: é mesmo preciso, para dizer que alguém é acusado de pedofilia, pormenorizar que os actos sexuais foram anais e orais, ou é só porque a pornografia vende? E acham que a presunção de inocência sobrevive às peças -cheias de pormenores recolhidos não se sabe bem onde - apresentadas nos telejornais, relatando minuciosamente o que o presumível inocente terá feito?)

Não sou pedófila, não sou do PS, não sou embaixadora, não sou apresentadora de televisão, nem advogada, nem médica, nem trabalhei na Casa Pia.
Mas sou jornalista e sinto-me cheia de dúvidas a ver os noticiários (?) televisivos da área do crime, além de que defendo que nada do que ocorre na sociedade me é alheio, e nunca esqueci o poema do Brecht sobre as prisões pela Gestapo. E se aceito que acusados de delito comum - sendo eles traficantes de droga, violadores de meninos ou mesmo assassinos - sejam vítimas de interrogatórios nocturnos, de interrogatórios prolongados, de meses e anos de prisão preventiva, sinto diminuída a minha capacidade de defender os presos de Guantanamo ou os de Fidel.

E vocês, o que acham? Depois de vermos um advogado a saír, estoirado, do interrogatório nocturno do seu constituinte, devemos todos ficar calados, para não nos confundirem com pedófilos ou pensarem que somos do PS?

Saudações,

Diana Andringa

Como é que um homem formado em letras gere uma "empresa"? O resultado está numa entrevista que fiz ao presidente do Instituto Piaget, António Oliveira e Cruz e que vai ser publicada na próxima quarta-feira, dia 28 no jornal O Primeiro de Janeiro.

“É preciso saber pensar...”


Quando, hoje em dia, se fala em recursos humanos de uma empresa, pensa-se logo em gestão, economia, rendimentos e como se pode aumentar a facturação de uma determinada empresa, tendo em conta o desenvolvimento e a evolução das novas tecnologias. Homem de letras, apaixonado pela filosofia e com livros editados de poesia, António Oliveira e Cruz tem outra opinião. Completamente diferente. Fomos ouvi-la...

Afirma que sempre foi um sonhador e, em pequeno, confessa que costumava falar com as pedras e com as árvores. Aliás, foi o contacto com a natureza “que me marcou para sempre”, adianta. Escreveu o seu primeiro poema, tinha 14 anos e, hoje, já publicou mais de 30 livros. A maioria deles, de poesia “porque a poesia é essencial; é o fundamento da sabedoria e da vida”.
Admitindo que “sempre fui um sonhador”, Oliveira e Cruz realizou o seu maior sonho quando, depois de um congresso de educação, que ocorreu em Lisboa, decorria o ano de 1978, surgia a ideia de se implementar o Instituto Piaget em Portugal. E, o que começou por ser uma entidade que ministrava acções de formação, tornou-se na maior instituição de ensino privado e cooperativo do nosso país. Hoje, é uma instituição única na Europa, com ramificações em várias regiões do país e em vários países africanos.
Na sua denominação social, o Instituto Piaget é uma cooperativa para o desenvolvimento humano integral e ecológico. A nossa primeira pergunta era inevitável: como é que um instituto superior, cuja finalidade última é a de formar pessoas, promove esse desenvolvimento entre as pessoas.
Oliveira e Cruz não hesitou e defendeu a ideia de que “tudo aquilo que é criado pelo Homem, e de que o Homem é criado, tem que ser considerado humano, mesmo quando as suas acções, sejam elas marcadas pela bondade em si mesmas, sejam elas perversas, atingem o extremo”. Por conseguinte, “tudo aquilo que o Homem produz, mesmo que tenha efeitos perversos, tem que ser considerado humano”. Defendendo que o bom ou o mau, somos nós que o definimos e não a natureza, Oliveira e Cruz é de opinião que “é o Homem que define o que é bom ou mau, em função de si próprio”, mesmo quando utiliza um deus como fundamento ou juiz de tal escolha ou tendência. Apesar de termos andado a construir a história numa grande diferenciação entre o Homem e os animais”, “estamos a chegar à conclusão que esse fosso não existe, uma vez que existe uma cultura de continuidade entre aquilo que o animal faz e aquilo que o homem cria”. E, essa mesma teoria aplica-se, mesmo quando o homem cria algo que nos causa prejuízo, como é o caso da bomba atómica. O homem criou essa arma e, no entanto, a sua perversidade pode levá-lo a destruir a sua própria espécie. “É uma espécie de Deus que, no fundo, se destrói a si mesmo”, acrescenta. Por outro lado, “o ser humano tremendamente racional é o mais tremendo dos predadores e dos destruidores”. Daí que seja necessário e indispensável assumir o Homem todo: o Sapiens-demens, como diz Edgar Morin.
Nesse sentido, o Instituto Piaget, segundo nos confessa, “tem este objectivo, o desenvolvimento humano e integral, porque nós somos o resultado de uma evolução, no qual não só evoluiu o nosso corpo como também a nossa inteligência e a nossa sociabilidade”. Para além disso, isso só se consegue, “mediante a aceitação de tudo aquilo que nós somos na realidade”.
Uma outra área importante do Piaget, é a sua divisão editorial, cujo projecto inicial foi criado para contribuir para a criatividade científica e cultural, assim como para uma maior difusão do saber. Segundo nos conta Oliveira e Cruz, “tem raízes profundas no projecto pedagógico, cultural, social e ecológico da instituição e assume-se, hoje, com um perfil próprio e um lugar de pleno direito no panorama editorial da língua portuguesa”. Neste momento, tendo já ultrapassado a edição de mais de mil títulos, “está actualmente em curso um projecto de promoção das nossas obras e da imagem da nossa editora, junto das principais universidades portuguesas e brasileiras, visando um maior e melhor conhecimento do nosso propósito cultural junto do nosso público alvo por excelência”. Acima de tudo, o que se pretende é gerar saber, porque o torna mais acessível e, em última análise, “estamos a investir num Portugal que se deseja de futuro, juntamente com todo o mundo de língua portuguesa”.

Educação fundamental

Reportando-se à forma como a temática dos recursos humanos é abordada no actual panorama do ensino superior em Portugal, Oliveira e Cruz considera que “tem que se partir sempre de alguns princípios importantes: um, que é essencial, é que a formação e a educação são um processo de evolução necessário à própria condição do ser humano”. Nesse sentido, “todos os seres vivos levam vários anos a conseguir a sua maturidade e a educação é um processo de maternagem que leva o seu tempo”. Daí que, “a educação é, fundamentalmente, estar atento à evolução própria de cada indivíduo na sua comunidade, de maneira a potenciar aquilo que, nas diferentes fases, a pessoa apresenta como exigências e como possibilidade”.
Um outro princípio essencial é que “a educação faz-se de baixo para cima e de dentro para fora, uma vez que a evolução humana se processa segundo um percurso bio-psico-social”. Um outro princípio é que a condição obrigatória do próprio ser humano é a partilha e/ou transferência de conhecimento. A esse respeito, Oliveira e Cruz considera que “conhecer é o acto de captar em função de si, no meio ambiente, coisas, seres ou objectos” construindo-se, nesse acto, ao mesmo tempo universal e único. E é isso que torna os seres humanos diferentes entre si, e diferentes na forma de partilhar e transmitir o seu conhecimento.
Daqui parte um outro enorme princípio e é de que ninguém tem mais ou melhor inteligência do que outro. Oliveira e Cruz é peremptório em afirmar que “face a um determinado assunto, o que se pode dizer é que, o que cada um conhece e a forma como esse conhecimento é interligado, é mais ou menos eficaz em função de um ou outro critério”. Partindo dessa base, será que se pode falar em ser-se mais ou menos inteligente? A resposta do presidente do Piaget é só uma: “não”. E, isto porque, “conhecimento é uma coisa; inteligência é outra”. O único elo de ligação entre conhecimento e inteligência é, para Oliveira e Cruz, “o pensamento, porque todos nós pensamos; cada um à sua medida, é certo, mas todos nós pensamos. E a medida de cada um é incomensurável”. Comparar inteligência é uma aberração social e uma tolice científica.

Filosofia e pensamento

É nesse sentido que o pensar conduz a nossa conversa até à filosofia. E, obrigatório, é falar do facto de a disciplina de filosofia ter sido retirada do plano curricular do 12º ano.
Sendo Oliveira e Cruz um fervoroso mas lúcido crítico dessa tomada de atitude por parte do actual ministro da educação, o presidente do Piaget refere que “a nossa cultura ocidental, no que ela tem de mais forte, é incompreensível se não tiver em conta duas dimensões fundamentais”, acrescentando que “são elas o resultado da sua profunda vivência histórica: a dimensão da maternagem humana através da língua (daí o chamar-se língua materna), e a dimensão do pensar.
O saber-pensar, o pensar enquanto dimensão estruturante humana, é incontornável em toda a formação. Daí que “uma pessoa que tenha chegado a adulto, sem ter reflectido sobre os problemas fundamentais da sua própria existência (que, no fundo, foi o que a filosofia fez), não fez nada”. Afinal, “o que foi que essa pessoa fez?”, interroga, considerando que “mesmo uma criança, de 4 ou de 5 anos, já tem que se confrontar com problemas filosóficos”. A título de exemplo, Oliveira e Cruz refere uma criança de 4 anos que, em tom de interpelação, disse à sua mãe: «a verdade e a mentira, são tudo mentira». E, quando a mãe lhe pergunta o porquê dessa afirmação, ela apenas responde «não estás a ver?». Nas palavras do presidente desta instituição, “a criança, pura e simplesmente, estava a pensar grande. Esta é uma daquelas afirmações que pode perdurar durante vários séculos e milénios, sem que ninguém perceba a sua justificação, mas que nos perturba mais profundamente que a interrogação da esfinge”.
É por isso que Oliveira e Cruz defende que “as crianças e os jovens têm que ter uma alimentação filosófica de base, que tem que ser trabalhada ao longo de toda a vida”. Por conseguinte, “eu tenho muita pena que o actual Governo tenha adoptado as atitudes que adoptou ao desvalorizar a importância da problemática filosófica no sistema educativo”.

Futuro da sociedade

Partindo do pressuposto que “o ser humano é o pilar da sociedade”, Oliveira e Cruz é de opinião que “para além da importância que reveste a sustentabilidade económica, é necessário ter em conta a sustentabilidade social e humana”, ou seja, “é urgente que a sociedade tenha uma estrutura suficiente para receber todos os seus novos elementos e para tratar condignamente quem está ou quem vai estar nessa mesma sociedade”.
Acima de tudo, Oliveira e Cruz defende que “o modelo de sociedade que eu idealizo é aquele que não rejeita ninguém e que integra toda a gente, com as suas diferenças; estas são necessárias e imprescindíveis a uma qualquer sociedade”. E é esta sustentabilidade social que uma empresa - “que saiba existir como uma estrutura complexa - tem que ter para poder concretizar-se como transformadora de produtos e informação numa rede empresarial altamente competitiva”.
Por outro lado, “tudo aquilo que nós fazemos, faz parte de uma construção pessoal e, se fazemos coisas que nos desfazem, estamos a desfazer-nos a nós próprios”. Nesse seguimento, vem a sustentabilidade humana e no facto de se pensar que “o homem não vive apenas anos, mas milénios e, se possível, viver o mais possível, face às condições que existam e, isso é que é o mais importante, pois é isso que nos dá a dimensão do longo prazo; da dimensão da humanidade, enquanto humanidade”. Por isso é que, “todo o homem concreto, ao mesmo tempo que é único, é também universal”.

Caixa:
“Na caminhada do aprender e do saber, a formação será sempre uma busca permanente de novos caminhos que conduzam ao desenvolvimento pessoal e colectivo. Por isso, construímos os Campus Académicos, espaços onde funcionam os institutos universitários e a escolas superiores de educação e de enfermagem Jean Piaget, em Vila Nova de Gaia, Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Viseu, Almada, Santo André e as universidades Jean Piaget em Angola e Cabo Verde.
Fazemos hoje ensino de qualidade, porque é com qualidade que pensamos o teu futuro! Contamos contigo!”

António Oliveira e Cruz

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