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26 maio 2003

Como é que um homem formado em letras gere uma "empresa"? O resultado está numa entrevista que fiz ao presidente do Instituto Piaget, António Oliveira e Cruz e que vai ser publicada na próxima quarta-feira, dia 28 no jornal O Primeiro de Janeiro.

“É preciso saber pensar...”


Quando, hoje em dia, se fala em recursos humanos de uma empresa, pensa-se logo em gestão, economia, rendimentos e como se pode aumentar a facturação de uma determinada empresa, tendo em conta o desenvolvimento e a evolução das novas tecnologias. Homem de letras, apaixonado pela filosofia e com livros editados de poesia, António Oliveira e Cruz tem outra opinião. Completamente diferente. Fomos ouvi-la...

Afirma que sempre foi um sonhador e, em pequeno, confessa que costumava falar com as pedras e com as árvores. Aliás, foi o contacto com a natureza “que me marcou para sempre”, adianta. Escreveu o seu primeiro poema, tinha 14 anos e, hoje, já publicou mais de 30 livros. A maioria deles, de poesia “porque a poesia é essencial; é o fundamento da sabedoria e da vida”.
Admitindo que “sempre fui um sonhador”, Oliveira e Cruz realizou o seu maior sonho quando, depois de um congresso de educação, que ocorreu em Lisboa, decorria o ano de 1978, surgia a ideia de se implementar o Instituto Piaget em Portugal. E, o que começou por ser uma entidade que ministrava acções de formação, tornou-se na maior instituição de ensino privado e cooperativo do nosso país. Hoje, é uma instituição única na Europa, com ramificações em várias regiões do país e em vários países africanos.
Na sua denominação social, o Instituto Piaget é uma cooperativa para o desenvolvimento humano integral e ecológico. A nossa primeira pergunta era inevitável: como é que um instituto superior, cuja finalidade última é a de formar pessoas, promove esse desenvolvimento entre as pessoas.
Oliveira e Cruz não hesitou e defendeu a ideia de que “tudo aquilo que é criado pelo Homem, e de que o Homem é criado, tem que ser considerado humano, mesmo quando as suas acções, sejam elas marcadas pela bondade em si mesmas, sejam elas perversas, atingem o extremo”. Por conseguinte, “tudo aquilo que o Homem produz, mesmo que tenha efeitos perversos, tem que ser considerado humano”. Defendendo que o bom ou o mau, somos nós que o definimos e não a natureza, Oliveira e Cruz é de opinião que “é o Homem que define o que é bom ou mau, em função de si próprio”, mesmo quando utiliza um deus como fundamento ou juiz de tal escolha ou tendência. Apesar de termos andado a construir a história numa grande diferenciação entre o Homem e os animais”, “estamos a chegar à conclusão que esse fosso não existe, uma vez que existe uma cultura de continuidade entre aquilo que o animal faz e aquilo que o homem cria”. E, essa mesma teoria aplica-se, mesmo quando o homem cria algo que nos causa prejuízo, como é o caso da bomba atómica. O homem criou essa arma e, no entanto, a sua perversidade pode levá-lo a destruir a sua própria espécie. “É uma espécie de Deus que, no fundo, se destrói a si mesmo”, acrescenta. Por outro lado, “o ser humano tremendamente racional é o mais tremendo dos predadores e dos destruidores”. Daí que seja necessário e indispensável assumir o Homem todo: o Sapiens-demens, como diz Edgar Morin.
Nesse sentido, o Instituto Piaget, segundo nos confessa, “tem este objectivo, o desenvolvimento humano e integral, porque nós somos o resultado de uma evolução, no qual não só evoluiu o nosso corpo como também a nossa inteligência e a nossa sociabilidade”. Para além disso, isso só se consegue, “mediante a aceitação de tudo aquilo que nós somos na realidade”.
Uma outra área importante do Piaget, é a sua divisão editorial, cujo projecto inicial foi criado para contribuir para a criatividade científica e cultural, assim como para uma maior difusão do saber. Segundo nos conta Oliveira e Cruz, “tem raízes profundas no projecto pedagógico, cultural, social e ecológico da instituição e assume-se, hoje, com um perfil próprio e um lugar de pleno direito no panorama editorial da língua portuguesa”. Neste momento, tendo já ultrapassado a edição de mais de mil títulos, “está actualmente em curso um projecto de promoção das nossas obras e da imagem da nossa editora, junto das principais universidades portuguesas e brasileiras, visando um maior e melhor conhecimento do nosso propósito cultural junto do nosso público alvo por excelência”. Acima de tudo, o que se pretende é gerar saber, porque o torna mais acessível e, em última análise, “estamos a investir num Portugal que se deseja de futuro, juntamente com todo o mundo de língua portuguesa”.

Educação fundamental

Reportando-se à forma como a temática dos recursos humanos é abordada no actual panorama do ensino superior em Portugal, Oliveira e Cruz considera que “tem que se partir sempre de alguns princípios importantes: um, que é essencial, é que a formação e a educação são um processo de evolução necessário à própria condição do ser humano”. Nesse sentido, “todos os seres vivos levam vários anos a conseguir a sua maturidade e a educação é um processo de maternagem que leva o seu tempo”. Daí que, “a educação é, fundamentalmente, estar atento à evolução própria de cada indivíduo na sua comunidade, de maneira a potenciar aquilo que, nas diferentes fases, a pessoa apresenta como exigências e como possibilidade”.
Um outro princípio essencial é que “a educação faz-se de baixo para cima e de dentro para fora, uma vez que a evolução humana se processa segundo um percurso bio-psico-social”. Um outro princípio é que a condição obrigatória do próprio ser humano é a partilha e/ou transferência de conhecimento. A esse respeito, Oliveira e Cruz considera que “conhecer é o acto de captar em função de si, no meio ambiente, coisas, seres ou objectos” construindo-se, nesse acto, ao mesmo tempo universal e único. E é isso que torna os seres humanos diferentes entre si, e diferentes na forma de partilhar e transmitir o seu conhecimento.
Daqui parte um outro enorme princípio e é de que ninguém tem mais ou melhor inteligência do que outro. Oliveira e Cruz é peremptório em afirmar que “face a um determinado assunto, o que se pode dizer é que, o que cada um conhece e a forma como esse conhecimento é interligado, é mais ou menos eficaz em função de um ou outro critério”. Partindo dessa base, será que se pode falar em ser-se mais ou menos inteligente? A resposta do presidente do Piaget é só uma: “não”. E, isto porque, “conhecimento é uma coisa; inteligência é outra”. O único elo de ligação entre conhecimento e inteligência é, para Oliveira e Cruz, “o pensamento, porque todos nós pensamos; cada um à sua medida, é certo, mas todos nós pensamos. E a medida de cada um é incomensurável”. Comparar inteligência é uma aberração social e uma tolice científica.

Filosofia e pensamento

É nesse sentido que o pensar conduz a nossa conversa até à filosofia. E, obrigatório, é falar do facto de a disciplina de filosofia ter sido retirada do plano curricular do 12º ano.
Sendo Oliveira e Cruz um fervoroso mas lúcido crítico dessa tomada de atitude por parte do actual ministro da educação, o presidente do Piaget refere que “a nossa cultura ocidental, no que ela tem de mais forte, é incompreensível se não tiver em conta duas dimensões fundamentais”, acrescentando que “são elas o resultado da sua profunda vivência histórica: a dimensão da maternagem humana através da língua (daí o chamar-se língua materna), e a dimensão do pensar.
O saber-pensar, o pensar enquanto dimensão estruturante humana, é incontornável em toda a formação. Daí que “uma pessoa que tenha chegado a adulto, sem ter reflectido sobre os problemas fundamentais da sua própria existência (que, no fundo, foi o que a filosofia fez), não fez nada”. Afinal, “o que foi que essa pessoa fez?”, interroga, considerando que “mesmo uma criança, de 4 ou de 5 anos, já tem que se confrontar com problemas filosóficos”. A título de exemplo, Oliveira e Cruz refere uma criança de 4 anos que, em tom de interpelação, disse à sua mãe: «a verdade e a mentira, são tudo mentira». E, quando a mãe lhe pergunta o porquê dessa afirmação, ela apenas responde «não estás a ver?». Nas palavras do presidente desta instituição, “a criança, pura e simplesmente, estava a pensar grande. Esta é uma daquelas afirmações que pode perdurar durante vários séculos e milénios, sem que ninguém perceba a sua justificação, mas que nos perturba mais profundamente que a interrogação da esfinge”.
É por isso que Oliveira e Cruz defende que “as crianças e os jovens têm que ter uma alimentação filosófica de base, que tem que ser trabalhada ao longo de toda a vida”. Por conseguinte, “eu tenho muita pena que o actual Governo tenha adoptado as atitudes que adoptou ao desvalorizar a importância da problemática filosófica no sistema educativo”.

Futuro da sociedade

Partindo do pressuposto que “o ser humano é o pilar da sociedade”, Oliveira e Cruz é de opinião que “para além da importância que reveste a sustentabilidade económica, é necessário ter em conta a sustentabilidade social e humana”, ou seja, “é urgente que a sociedade tenha uma estrutura suficiente para receber todos os seus novos elementos e para tratar condignamente quem está ou quem vai estar nessa mesma sociedade”.
Acima de tudo, Oliveira e Cruz defende que “o modelo de sociedade que eu idealizo é aquele que não rejeita ninguém e que integra toda a gente, com as suas diferenças; estas são necessárias e imprescindíveis a uma qualquer sociedade”. E é esta sustentabilidade social que uma empresa - “que saiba existir como uma estrutura complexa - tem que ter para poder concretizar-se como transformadora de produtos e informação numa rede empresarial altamente competitiva”.
Por outro lado, “tudo aquilo que nós fazemos, faz parte de uma construção pessoal e, se fazemos coisas que nos desfazem, estamos a desfazer-nos a nós próprios”. Nesse seguimento, vem a sustentabilidade humana e no facto de se pensar que “o homem não vive apenas anos, mas milénios e, se possível, viver o mais possível, face às condições que existam e, isso é que é o mais importante, pois é isso que nos dá a dimensão do longo prazo; da dimensão da humanidade, enquanto humanidade”. Por isso é que, “todo o homem concreto, ao mesmo tempo que é único, é também universal”.

Caixa:
“Na caminhada do aprender e do saber, a formação será sempre uma busca permanente de novos caminhos que conduzam ao desenvolvimento pessoal e colectivo. Por isso, construímos os Campus Académicos, espaços onde funcionam os institutos universitários e a escolas superiores de educação e de enfermagem Jean Piaget, em Vila Nova de Gaia, Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Viseu, Almada, Santo André e as universidades Jean Piaget em Angola e Cabo Verde.
Fazemos hoje ensino de qualidade, porque é com qualidade que pensamos o teu futuro! Contamos contigo!”

António Oliveira e Cruz

23 maio 2003

Num especial Guia turístico de Gaia, a ser publicado no jornal O Primeiro de Janeiro, no próximo domingo, dia 25 de Maio, vai ser publicado o seguinte artigo relativo à inauguração do Cais de Gaia.

Uma esplanada...sobre o Douro


Renascido dos escombros de uma zona excessivamente degradada, onde existia o então denominado Parque de Exposições, o Cais de Gaia promete abalar a escassa noite portuense, confinada a meia dúzia de bares na Ribeira e às discotecas da zona industrial.

Decorreu na passada sexta-feira, a inauguração do Cais de Gaia, que contou com a presença de inúmeros convidados, empresários e individualidades do país. “Em homenagem ao rio Douro, não posso deixar de agradecer a todos aqueles que ajudaram a erguer a âncora deste navio para que este empreendimento pudesse navegar e chegar a bom porto”. Foi com estas palavras que João Gomes de Oliveira, presidente da Douro Cais iniciou o seu discurso de inauguração.
Numa iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e da APDL, encontra-se agora renascida toda a zona ribeirinha de Gaia. Neste espaço, composto por três pavilhões, serão distribuídos vários negócios de restauração, bares e comércio, pretendendo-se que constituam, por si só, um motivo de atracção. Para além disso, um dos grandes objectivos da Douro Cais, tal como adiantou João Gomes de Oliveira é “trazer de novo as pessoas à Ribeira de Gaia”. Paralelamente às áreas comerciais, existirá ainda uma praça acústica, cuja dinamização dos eventos ficará a cargo da rádio Nova Era. Para além disso, será neste espaço que terá lugar o Festival Internacional de Gaia, um evento de carácter anual e que se desenrolará até ao próximo mês de Outubro. A par de todos estes eventos, o presidente da Douro Cais é de opinião que “estou certo que este novo empreendimento constituirá um forte aliado do desenvolvimento turístico da área metropolitana do Porto e valorizará a fixação de turistas neste belo cenário que é o Douro”, acrescentando que, “a partir de agora, terão a oportunidade de desfrutar do sabor e dos aromas da Ribeira de Gaia, confortavelmente instalados nesta soberba e enorme esplanada sobre o Douro”.
Uma outra característica desta «nova marginal de Gaia», é que passará a dispor de mais lugares de estacionamento, com capacidade para receber mais de mil automóveis. A esse respeito e, conhecendo as actuais dificuldades para se estacionar no centro histórico da cidade, Luís Filipe Menezes anunciou já a construção de novos parques de estacionamento. Enquanto isso, está já garantida a circulação de um shuttle entre Vila Nova de Gaia e o Cais, por forma a que as pessoas possam deixar os carros nos parques de estacionamento limítrofes ou em casa e, deslocarem-se a este novo espaço, sem se preocuparem com o estacionamento. De referir que, a utilização deste novo meio de transporte, durante este ano, é gratuita.
Sendo o porto de Leixões a maior infraestrutura portuária do Norte de Portugal e, uma das mais importantes do país, Ricardo da Fonseca, presidente do conselho de administração da APDL fez questão em afirmar que “este espaço fala por si e, em breve entrará na lista de casos de sucesso de reconversão de áreas portuárias”. Mas, como o Douro não é só as suas margens, houve também a necessidade de se regularizar o funcionamento da actividade marítimo-turística e que se desenvolvia de uma forma quase anárquica. A esse respeito, Ricardo da Fonseca afirma que “a APDL tem hoje essa actividade regulamentada no interesse da salvaguarda da qualidade do turismo local, como também dos agentes económicos que a dinamizaram”. Aliás, as imagens mais registadas pelos turistas que visitam Gaia são, indiscutivelmente, “as dos barcos rabelos, fundeados em frente às caves com as suas velas desfraldadas”. Ricardo da Fonseca salientou mesmo que, “essa, é uma panorâmica que preservaremos a qualquer custo”. Daí que “temos um projecto que passa, não só, por aumentar a actividade turística através de passeios ao longo do Douro, como também na perspectiva de facilitar a travessia entre as duas margens”, concluiu.

19 maio 2003

Foi publicada na edição de hoje do O Primeiro de Janeiro, a seguinte entrevista com Maria Amélia Paiva, presidente da Comissão para a Igualdade e para os Direitos da Mulher.


A luta pela igualdade




Segundo a alínea h) do artigo 9º da Constituição da República Portuguesa, é tarefa fundamental do Estado, promover a igualdade entre homens e mulheres. E é, partindo desse pressuposto, que a CIDM tem por principal objectivo, conseguir a igualdade de direitos e de oportunidades. A propósito da assinatura de dois novos planos, fomos conversar com Maria Amélia Paiva, presidente da CIDM que nos falou das principais dificuldades e dos projectos para o futuro.

Instituído em Novembro de 1977, este organismo, tutelado pelo Ministro da presidência, comemorou recentemente os seus 25 anos de actividade. Os motivos que levaram ao seu aparecimento e, de igual forma, a que ainda hoje exista, fundamentalmente, prendem-se com o facto de, em pleno século XXI, haver a necessidade de se ter pôr termo a discriminações evidentes que colocaram as mulheres numa situação de manifesta desigualdade em relação aos homens. Essas desigualdades fazem-se sentir, não só, nos direitos cívicos e políticos, como também nos direitos económicos e culturais.

25 anos volvidos e um longo trabalho apresentado, quer do ponto de vista legal, como da sua consagração, muitas são as discriminações e desigualdades, quer no mercado de trabalho, quer na participação das mulheres na vida pública e política. Se se comparar com outros países da União Europeia, quando se fala em lugares de chefia e/ou decisão, as mulheres portuguesas continuam a ocupar os últimos lugares da tabela, no que diz respeito a áreas, como por exemplo, as económicas e financeiras. Interessante, é analisar outras áreas, ligadas à ciência e à tecnologia e, nas universidades portuguesas, o número de mulheres é cada vez mais significativo, não só de estudantes, como também de professoras. É nesse sentido que Maria Amélia Paiva admite que "já foram dados passos significativos", acrescentando que "existem outras áreas em que é necessário continuar a ter uma atenção especial e desenvolver medidas de acção positiva para que, a igualdade, para além da sua consagração na lei, possa ser uma realidade e possa, de facto, ser efectiva".

Igualdade vs violência

Actuando no terreno de variadíssimas formas, a CIDM tem desenvolvido inúmeras parcerias, por forma a levar a bom porto o seu extenso trabalho. Desde contactos/colaboração/parceria com centros de saúde, passando pelas escolas (secundárias e superiores), câmaras municipais, entre outros, a CIDM aguarda a aprovação em Conselho de Ministros, de dois planos nacionais: o Plano Nacional para a Igualdade e o Plano Nacional contra a Violência Doméstica. Trata-se de dois instrumentos fundamentais que vão permitir alargar e aprofundar esta rede de parcerias e a integração da perspectiva de género em todas as políticas e programas. Para além disso, vão ainda permitir actuar em áreas tão privilegiadas como seja a promoção da igualdade de oportunidades. Nesse sentido, no que diz respeito ao Plano Nacional para a Igualdade e, na linha do que está estabelecido, quer pelo programa do Governo, como também na Plataforma de Acção Pequim a que o nosso Governo, voluntariamente, se obrigou, o trabalho será desenvolvido em áreas como o trabalho e o emprego, a conciliação da vida familiar e profissional, a educação e a saúde, entre outras.

Dia Internacional da Mulher

A propósito do Dia Internacional da Mulher, comemorado a 8 de Março, questionámos Maria Amélia Paiva no sentido de sabermos se se justificava a sua comemoração. Com efeito, numa sociedade em que, homens e mulheres reclamam a igualdade de oportunidades e de direitos, muitas são as críticas que alegam que, se as mulheres «querem» igualdade de oportunidades, não se justifica ter um dia internacional dedicado a elas. A esse respeito, a presidente da CIDM refere que "de facto, as mulheres e os homens têm os seus direitos e deveres consagrados na lei; agora, isso é só na teoria, porque na prática, isso não acontece". E daí a "necessidade e a importância de haver a comemoração desse dia". Por outro lado, "se, em Portugal, a situação das mulheres é relativamente positiva, se se comparar com o que era há 30 anos atrás, no resto do mundo isso não acontece", salienta. Nesse sentido, esclarece que "há ainda um longo percurso a percorrer" e, referindo-se às medidas em concreto previstas no Plano Nacional para a Igualdade, Amélia Paiva afirma que "uma área que nos está a preocupar agora tem a ver com as mulheres imigrantes", uma vez que elas trazem dos seus países de origem os seus hábitos, os seus valores e as suas tradições. Não querendo ser contra esses hábitos, "além de que temos o maior respeito por eles, não podemos, contudo, aceitar que esses mesmos hábitos sejam contra os direitos e os deveres consagrados na nossa Constituição e nas leis portuguesas". A título de exemplo, refira-se a tradição de algumas comunidades que vedam o acesso das raparigas à escola ou que praticam a mutilação genital feminina. É nesse sentido que, em parceria com o Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas e o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a CIDM pretende encetar diálogos com vista a encontrar um conjunto de acções prioritárias e que estão contempladas no Plano Nacional para a Igualdade, com o objectivo de dar seguimento a algumas das conclusões obtidas no seminário realizado no passado mês de Janeiro.

Um outro protocolo, muito recentemente, foi assinado com a Fundação de Ciência e Tecnologia, no sentido de se promoverem estudos sobre as mulheres. Um dado curioso é que, neste momento, as mulheres, cada vez mais, emigram sozinhas, contrariando as tendências das últimas décadas em que era o homem o primeiro a deixar o seu país de origem. Neste momento, Maria Amélia Paiva afirma que "já conhecemos alguns casos em que foram as mulheres as primeiras a deixar o seu país e, mais tarde, os seus maridos, filhos ou mesmo outros parentes, juntaram-se a ela".

Numa altura em que, em Portugal, neste momento, já estão identificados cidadãos de cerca de 120 nacionalidades, um dado a ter em conta, prende-se com a adopção ou não da cultura e dos valores que existem nos países de acolhimento. A esse respeito, Maria Amélia Paiva é de opinião que "muitas dessas comunidades são muito fechadas e têm regras muito rígidas; por outro lado, noutras comunidades, o processo de integração é mais fácil e também depende das respectivas sociedades de acolhimento, ou seja, se a sociedade de acolhimento adoptar políticas de inclusão e de acolhimento, é mais fácil evitar este tipo de guetos, sejam eles de origem cultural, religiosa, ou qualquer outro". Para além disso, a presidente da CIDM alerta para o facto de que "o valor que é importante promover numa democracia, é o valor do conhecimento mútuo das várias culturas, para nos respeitarmos mutuamente", acrescentando que "para nos podermos integrar bem, precisamos de nos conhecer". Tudo isso, tendo em conta que "em Portugal, são as leis portuguesas que vigoram e são elas que têm que ser respeitadas".

Quotas femininas

A polémica questão da adopção de quotas é, para a presidente da CIDM, "uma das medidas possíveis, entre muitas outras". Mais do que isso, Maria Amélia Paiva defende que "é preciso promover e fomentar a participação das mulheres a todos os níveis da actividade pública, seja ela através do apoio a associações, seja através do apoio às mulheres, mediante a adopção de uma política de conciliação da vida familiar e profissional". Para além disso, Maria Amélia Paiva defende a "partilha das responsabilidades, nomeadamente parentais, uma vez que, só assim é que as mulheres podem, em paralelo com a actividade familiar, expandir a sua carreira profissional". A esse respeito, a presidente da CIDM refere o facto de que, muitas das mulheres deixam de poder dedicar-se a outras actividades, uma vez que têm todo o peso das tarefas domésticas. Como solução, defende a responsabilização, não só da mulher, mas do casal, nas tarefas domésticas. Mesmo assim e, partindo da ideia de que muitos dos casais já partilham essas mesmas tarefas, Maria Amélia Paiva refere que "é quase sempre à mulher que cabe o grosso das tarefas, como seja, tratar das roupas, fazer as compras para a casa, fazer o almoço e o jantar e, por conseguinte, o homem fica com os pequenos afazeres, com as tarefas mais simpáticas, como seja, cuidar dos filhos e levá-los a passear".

Uma outra questão que se pode associar a esta, tem a ver com o facto de se fazer opções. Maria Amélia Paiva relembra que, "quando a mulher é incumbida de um cargo superior, ela tem que fazer essa opção: ou a carreira; ou a família". Pelo contrário, "o homem não pensa nisso e nem sequer se coloca essa questão; ele aceita e pronto". Daí que, a presidente da CIDM considera que, "o equilíbrio só irá acontecer quando mulheres e homens forem educados para, ambos, fazerem cedências".

Futuro

Não pretendendo fazer qualquer tipo de futurismo relativamente ao Plano Nacional para a Igualdade e ao Plano Nacional contra a Violência Doméstica, Maria Amélia Paiva gostaria de, dentro de um ano, "poder avaliar positivamente algumas das medidas práticas que, no terreno, esperamos poder testar e, por conseguinte, afirmarmos que foram dados passos concretos na melhoria do seu direito efectivo à igualdade de oportunidades". De referir que, "esse direito é igual, quer para homens, como para muheres e, ambos serão cidadãos mais completos e mais plenos, se a igualdade for efectiva para uns e para outros", conclui.

08 maio 2003

Foi hoje publicado, num suplemento subordinado à toxicodependência, no jornal O Primeiro de Janeiro, o artigo que refiro no post do dia 15 de Abril cujo título é:

Legalização das drogas – Prós e Contras



04 maio 2003

Vai ser publicado na edição de 1 a 15 de Maio do Jornal 4 Esquinas, o seguinte texto:

O que eu penso sobre...




Futebol. Nunca gostei de futebol. Aliás, odeio futebol. Por mais que eu tente, não consigo perceber que fenómeno que arrasta multidões em volta de uma equipa de futebol. O "amor" e a "dedicação" que cada pessoa tem pelo seu clube, para mim, não quer dizer nada. Nada mesmo. Zero. Desculpem-me se ofendo alguém, mas é assim que eu penso.

Isto vem a propósito do facto do Futebol Clube do Porto ter ganho não sei o quê, nem com quem (sei que foi em Itália), com uma equipa qualquer (nem sei se foi italiana), a propósito de um campeonato (não sei se é este o termo que os entendidos na matéria utilizam) cuja final vai ocorrer em Sevilha (isso eu sei que é em Sevilha porque os meus colegas de trabalho querem alugar um autocarro e ir para lá, agora em Maio). Escusado será dizer que nem sequer fui auscultado para saber se queria ir, porque a minha resposta só podia ser não.
E isto vem a propósito do facto de, desconhecendo eu esse jogo, caí no erro de passar pela avenida dos Aliados, no Porto, nesse fatídico dia e, ainda por cima, de carro. Foi um tormento, um suplício, uma amargura, uma agonia ter conseguido atravessar aquela avenida, em direcção à ponte D. Luís, para passar para o lado de Vila Nova de Gaia.

O povo, qual êxtase, qual bebedeira, não deixava passar ninguém. Os cachecóis em volta do pescoço; os bonés, meio revirados nas cabeças suadas, as camisolas do clube todas amarrotadas; as garrafas de cerveja, já meio vazias nas mãos; e aqueles gritos? Só se ouvia: Porto; campeões; somos campeões; o Porto é o maior. Até uma senhora, cujos 60 já tinham acontecido há muitos anos, gritava: "semos campeões; semos os maiores". E olhem que eu adoro a cidade do Porto e concordo com aquela frase que diz que o Porto é uma Nação. A cidade do Porto; não os clubes da cidade. Mas, voltando ao principal. Primeiro que eu conseguisse atravessar aquela avenida, foi um dia de juízo. Apesar de levar os vidros do carro bem fechados e o som do rádio estar nas alturas, aquele barulho ensurdecedor, lá fora, não parava de me atazanar a cabeça. E depois os beijos. O povo beijava a bandeira do FCP com um fervor tal que me incomodava; o povo gritava o nome do Pinto da Costa e do Mourinho (esses, eu sei quem são). As buzinadelas dos outros carros, enfeitados de azul e branco... Uma coisa impressionante!!!

Mas a minha indiferença para o mundo do futebol e para as questões ligadas ao futebol, não se resume ao FCP. Estende-se a todos os outros clubes; a todos os outros "povo" que têm as mesmíssimas atitudes em relação aos seus clubes do coração. Não entendo; não consigo perceber esse fenómeno e, por mais que as pessoas tentem (acreditem que já tentaram), não me conseguem convencer a gostar, ainda que por um bocadinho, desse desporto chamado rei. Aliás, essa é outra das coisas que têm que me explicar, muito bem, porque raios é que o futebol é apelidado de desporto rei.

E depois há o Euro 2004. Acho muito bem que se façam esse tipo de coisas no nosso país. Atraem pessoas, visitantes e turistas. Mas, gastarem os milhões que estão a gastar na construção de estádios, quando se podia canalizar esse dinheiro para outras coisas que fazem mais falta no nosso país, é outra das minhas revoltas. Para além disso, quando é que o país irá ver o retorno de todo o investimento que está a ser feito? Eu arrisco mesmo a dizer que, nunca. Mas isso são outras histórias que nos levariam a outras questões.

Resta-me a consolação de que os campeonatos de futebol estão quase a acabar e que, durante alguns meses, não se vai ouvir falar nesse desporto. Para depois, voltarmos ao início de tudo; voltar tudo ao mesmo; os mesmos beijos, os mesmos gritos; a minha indiferença. Como se não houvesse mais nada para falar, a não ser de futebol.


24 abril 2003

Novas funcionalidades para os blogs em wbloggar

15 abril 2003

Vá-se lá saber porquê, mas a direcção do jornal para onde trabalho, decidiu não publicar este meu texto que se segue.

Legalização das drogas – Prós e Contras

Um tabu que veio para ficar

Realizou-se no passado dia 8, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, uma conferência subordinada ao tema “Legalização das drogas – Prós e Contras”, que contou com um painel de luxo e, no qual, as ideias e as opiniões, nem sempre coincidiram.

Organizada pela Associação Novo Olhar (ver caixa), que tem, como fim, o indivíduo e o seu bem estar, promovendo estilos de vida saudáveis, bem como cuidados sanitários, sociais e apoio psicossocial e, partindo da ideia base de que a percentagem de pessoas infectadas por HIV/SIDA é cada vez maior em todo o mundo, foi intenção desta associação juntar um grupo de especialistas nesta área para debater, até que ponto, será benéfica a legalização das drogas em Portugal, à semelhança do que acontece com outros países.
Moderada por Luís Conde, estagiário da associação, esta conferência contou com a presença de Filipe Nunes Vicente, psicólogo clínico e docente no Instituto Superior Miguel Torga, Luís Filipe Pereira, jurista e deputado pelo PS na Assembleia da República, Rui Barreto, médico psiquiatra no hospital Sobral Cid e, Pedro Oliveira, mestre em psicologia e assistente social no Centro de Apoio a Toxicodependentes de Coimbra.

Ideias e opiniões

Logo a iniciar a conferência, Rui Barreto confessou que “não tenho a ideia de que, em Portugal, se faça a liberalização das drogas”. Antes pelo contrário, acrescentou, “o espírito da lei é no sentido de se despenalizarem os consumos”. No entanto, alertou que “se se proceder à liberalização das drogas, convém saber que tipo de drogas é que vamos liberalizar”.
Por seu lado, Luís Filipe Pereira, começou por confessar que “não concorda com a posição do actual Governo” e fez uma comparação entre os diplomas que vigoraram até 1993 e, o actual, em vigor desde o ano 2000. Em jeito de conclusão, salientou que “desde que há criminalização, nunca o tráfico de droga decresceu”.
O debate começou a aquecer com a intervenção de Pedro Oliveira, ao afirmar que “vivemos numa Torre de Babel no que respeita à toxicodependência”, salientando que “existe uma via verde, uma política suja e hipócrita em torno desta questão”. O que se pretende, mais do que tudo, “é dar uma resposta clara e inequívoca às pessoas que nos procuram e querem ajuda”. Para além disso, confessou que “legalizar não me parece correcto”.
A mais aguardada intervenção da noite, foi a de Filipe Nunes Vicente que confessou não estar nada optimista em relação ao futuro das drogas no nosso país e, fazendo uma alusão ao que se passa na Holanda, “isso não quer dizer que, se algumas drogas fossem legalizadas, toda a gente passaria a consumir drogas”.
Em jeito de balanço, Eugénia Soares, coordenadora da sede de Coimbra desta associação salientou que, “vamos continuar a promover este tipo de debates, até porque, o público precisa ser informado”.

Caixa
Quem é... Associação Novo Olhar

A Associação Novo Olhar é uma Organização Não Governamental cujo objectivo principal é a prevenção do VIH/SIDA e tem como princípio orientador as políticas de redução de risco. A associação actua em 3 áreas de prevenção: primária, através do “Projecto Rua Jovem”; secundária, através do “Projecto Direito” e do “Plano Tóxico”; e, terciária, através do ”Plano Carpe Diem”. Estas actuações são efectuadas junto das populações com comportamentos de risco (todos nós) e, com comportamentos de risco específicos, ou seja, toxicodependentes, prostitutos(as) e indivíduos infectados pelo vírus do VIH/SIDA.

08 abril 2003

Vai ser publicado no próximo dia 15 de Abril, no jornal O Primeiro de Janeiro, um trabalho dedicado ao I Encontro Nacional sobre Patologia e Reabilitação de Edifícios. O texto que se segue, irá abrir o referido trabalho.

Urge reabilitar, com qualidade

Muito embora haja uma preocupação crescente de construção, traduzida pela introdução de regulamentação específica na área do conforto, verifica-se que os edifícios construídos nos últimos anos não apresentam a qualidade esperada. Pode mesmo afirmar-se que há alguns milhares de fogos, construídos recentemente, com anomalias muito graves que condicionam a sua utilização.

A falta de sistematização do conhecimento, a ausência de informação técnica, a inexistência de um sistema efectivo de garantias e de seguros, a velocidade exigida ao processo de construção, as novas preocupações arquitectónicas, a aplicação de novos materiais e, a inexistência na equipa de projecto, de especialistas em física das construções, entre outros, são causas fundamentais da não qualidade dos edifícios.
Nestas circunstâncias, será da maior importância uma reflexão profunda sobre as causas da patologia da construção em Portugal, bem como a definição de uma estratégia, a médio prazo, para a melhoria da qualidade e da durabilidade dos edifícios, em particular, da sua envolvente.
O investimento na reabilitação e conservação de edifícios em Portugal é extremamente reduzido, não atingindo sequer, os dez por cento do investimento total do sector da construção, contrariamente a muitos países da União Europeia em que esse sector corresponde a uma fatia do mercado superior a 40 por cento. A ausência de investimento na reabilitação tem como consequência a degradação dos centros urbanos e da qualidade de vida dos cidadãos. Assim, considerou-se ser necessário inverter esta situação nas próximas décadas o que, para tal, exige, o desenvolvimento de metodologias para a elaboração de projectos de reabilitação de edifícios, a implementação de estudos de diagnóstico suportados por medições in situ e em laboratório, o conhecimento das anomalias mais correntes, o conhecimento do desempenho dos materiais e tecnologias utilizadas em reabilitação, bem como a elaboração de cadernos de encargos exigências suportadas por manuais exigenciais.
Neste contexto, o I Encontro Nacional sobre Patologia e Reabilitação de Edifícios – PATORREB 2003, que teve lugar nos dias 18 e 19 de Março, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), procurou reflectir sobre esta problemática, contribuindo para o diagnóstico da situação e para perspectivar o futuro.
Para além das cerca de cinquenta comunicações, o encontro incluiu também dois workshops sobre o ensino da higrotérmica, patologia e reabilitação e sobre as potencialidades laboratoriais no domínio da higrotérmica.

Perceber os problemas

Presidindo a comissão organizadora, Vasco Peixoto de Freitas, professor catedrático da FEUP, em entrevista ao jornal “O Primeiro de Janeiro” confessou-nos que este encontro teve por base dois objectivos. O primeiro, “analisar a problemática da patologia, ver quais as causas dos problemas, saber o porquê de eles existirem e que estratégias são necessárias desenvolver no futuro para que eles sejam minimizados”. Por outro lado e, porque a reabilitação de edifícios é praticamente inexistente em Portugal, “entendemos que este era o momento oportuno de a discutir, de perceber quais os incentivos, como encarar o problema do ponto de vista metodológico e, do ponto de vista tecnológico, apreciar as soluções para a reabilitação”. Nesse sentido, a principal mensagem que saiu deste encontro, foi direccionada a engenheiros e arquitectos, uma vez que são eles “os principais interventores no património edificado”. Os engenheiros, “porque são responsáveis pelas soluções e pela concepção de algumas soluções de reparação”; os arquitectos, “porque muitos deles intervêm nas características envolventes do próprio edifício”.
De salientar que, neste encontro, onde estiveram presentes cerca de 600 pessoas, dos quais 200 eram alunos, Vasco Peixoto de Freitas entende que “os alunos de engenharia e de arquitectura deveriam participar neste encontro, por forma a conhecer novas realidades, novas linguagens e novos programas”.
No que diz respeito às principais conclusões que foram adiantadas na sessão de encerramento, Vasco Peixoto de Freitas considera que “é claro para todos que não existe qualidade suficiente na construção e que são muitos os defeitos existentes”. Para além disso, uma das principais causas de anomalias na construção, é a humidade e, por outro lado, “é claro que o comportamento das paredes e das coberturas tem que ser estudado e tem que ser requacionado, para se evitarem esses tipos de inconvenientes”. Quanto aos investimentos que têm sido efectuados na área da reabilitação, Portugal é, com efeito, o país que menos tem investido nesta área. A esse respeito, Vasco Peixoto de Freitas é de opinião que “há que encontrar, do ponto de vista estratégico e tecnológico, uma política de incentivos, assim como as soluções e os caminhos para resolver este problema”. Por último, “interessa discutir, do ponto de vista técnico e científico, as principais conclusões da investigação desenvolvida até ao momento”. Os principais motivos que levam a essa falta de investimento, segundo este professor, prendem-se essencialmente com diversos motivos. Em primeiro lugar, “não existem quaisquer dúvidas, de que não existe reabilitação”, acrescentando que, “os centros urbanos das grandes cidades portuguesas estão muito degradados pelos mais diversos motivos”. A título de exemplo, Vasco Peixoto de Freitas refere que “os edifícios mais antigos, do ponto de vista do conforto, não têm as mesmas condições que os edifícios novos”, justificando essas condições, “pelo facto de não terem sido intervencionados nos últimos anos”. Para além disso, refere que “é possível, conservando e reabilitando, com uma forma diferente de construção, na periferia das cidades, ter magnifícos espaços recuperados, no centro das cidades”, acrescentando que “há é que reabilitar e recuperar esses mesmos edifícios”.

Projectos

Na sequência deste encontro, para além de uma sensibilização de todos os intervenientes para este problema, Vasco Peixoto de Freitas considera que “seria desejável criar grupos de estudo sobre a patologia em Portugal, cujo objectivo seria criar um conjunto de empresas e/ou instituições, fundadoras desses grupos de estudo para, durante dois anos, criar-se na Internet, um espaço livre onde se pudessem divulgar os principais defeitos da construção”.
Por outro lado e, no que diz respeito à patologia, espera-se que seja possível criar um grupo de trabalho alargado, englobando as universidades, as empresas de construção, as ordens profissionais, os laboratórios, as empresas de materiais de construção, entre outros, e que criasse uma documentação técnica, sólida, aceite por todos os técnicos intervenientes na construção e que pudesse servir de base à elaboração de cadernos de encargos exigenciais. Quanto à reabilitação, a grande mensagem que foi transmitida é do ponto de vista metodológico. Segundo Vasco Peixoto de Freitas, “as empresas de gestão de condomínios devem perceber que, reabilitar, não é pedir um preço para curar um problema; há que fazer um estudo, um diagnóstico o mais técnico possível, por forma a, depois, encontrar uma solução de reparação”.

04 abril 2003

Este texto vai ser publicado na edição do próximo dia 13 de Abril da Revista Rostos.

Expocosmética – 8º Salão Internacional de Cosmética

Sucesso garantido

Entre shows, exposições e debates, o Salão Internacional de Cosmética juntou, no fim de semana de 29 a 31 de Março, profissionais e público que, mais do que visitar o espaço, se começam a interessar por todos estes temas ligados à beleza e à cosmética.

Obtendo o melhor resultado de sempre, quer no que diz respeito a expositores, como também a visitas, o 8º Salão Internacional de Cosmética consagrou Portugal do sector da beleza e da cosmética.
O êxito conquistado em 2003 confere a este evento, único do país, o estatuto de evento de referência do sector no contexto ibérico, tanto mais que o número de visitantes superou as expectativas da organização (mais de 30 mil visitas), “o que significa o reconhecimento do trabalho desenvolvido ao longo destas últimas oito edições”. Quem o afirma é Fernando Seixas, director da feira.
Instalada durante três dias na Exponor, no Porto, importantes empresas, não apenas portuguesas, como também estrangeiras, fizeram a divulgação dos seus produtos e realizaram contactos e negócios. Simultaneamente, “nos dois palcos que foram instalados para o efeito, decorreram várias passagens, shows de moda e de cabelos, apresentação de colecções e debates”, refere Fernando Seixas.
Também no âmbito da Expocosmética, decorreu o II Congresso Internacional de Naturopatia, promovido pelo Centro de Medicina Natural e que definiu as características de diferentes medicinas não convencionais. Um dado curioso reflecte-se no facto de, pela primeira vez, ter havido, neste espaço, um pavilhão dedicado às tatuagens, piercings e bodypainting, com demonstrações permanentes de como se pode fazer uma tatuagem e/ou um piercing.
Worhshops e demonstrações completaram o plano de actividades do certame, “que regressa em 2004 com o que de melhor se faz no sector e no país”, conclui o director desta feira.

11 março 2003

Presidente do Sindicato dos Professores da Zona Norte (SPZN) afirma que...
"O futuro passa pelos professores"

Que o ensino em Portugal já conheceu dias melhores, não é novidade. Que as expectativas por que essas melhoras ocorram, também não. Se, estando nós do lado de fora, assim o sentimos, quem lida diariamente com as nossas crianças e os nossos jovens, mais o sente.

Há razões para sentirmos alguma insatisfação: Portugal é, com efeito, um dos países da Europa que mais baixos níveis de sucesso apresenta ao nível escolar. Também é sabido que o estado em que as nossas escolas se encontram, não é dos melhores. Aliado a tudo isso, paira o abandono da escolaridade mínima obrigatória.
A própria imagem social dos professores tem vindo a mudar, mas há traços que permanecem na identidade associada à profissão de professor. Desde sempre houve e há, apesar de algumas flutuações, a consideração pelo professor. O professor tem sido considerado um dos expoentes da nossa sociedade. E é genericamente respeitado por todos; todos nós mantemos hoje ainda a recordação de algum professor em particular que nos marcou de uma forma muito especial. E é frequente que um dos nossos professores seja escolhido para lhe contarmos um segredo, uma confidência, antes mesmo de o contarmos a alguém da nossa família; e ele está lá para ouvir, para aconselhar.
Numa altura em que o stress tomou conta da vida de muitas pessoas, as exigências que se levantam à escola e aos professores aumentaram; ele é, por assim dizer, a extensão da família.
Mais do que ensinar, cabe ao professor dos tempos modernos, educar. A falta de tempo é motivo para muitas justificações e, na maioria das vezes, os pais não têm tempo para estar com os filhos. Esta ausência significa que deixa de haver tempo para os educar, para os ajudar; simplesmente, não há tempo para estar com eles.
João Dias da Silva é o presidente do Sindicato dos Professores da Zona Norte. Considera que, "apesar de termos assistido à democratização do acesso ao ensino em Portugal, não se assistiu à democratização do sucesso educativo. Verificamos que as taxas de analfabetismo, embora largamente reduzidas, se mantêm a níveis inaceitáveis". A verdade é que "a distância a que nos encontrávamos dos outros países europeus era grande e, apesar do esforço que foi feito, ainda não atingimos os níveis que desejamos".

Papel central

Enquanto educador, João Dias da Silva, também ele professor, é de opinião que "o professor desempenha um papel central no sistema educativo, uma vez que o futuro do país, passa pelos professores de hoje", acrescentando que "a nossa profissão tem a particularidade de, os efeitos daquilo que realizamos hoje, só se verificarem daqui a uns anos". Daí referir que, "à geração actual de professores, cabe a consciência de que, o futuro passa por nós professores que, dia a dia, lidamos com os alunos". Significa isto, nas palavras deste professor, que cabem aos professores responsabilidades diferentes: "os jovens têm que adquirir na escola, as ferramentas que lhes permitam enfrentar os desafios que vão encontrar no futuro e que, nós, neste momento, ainda desconhecemos". Por isso mesmo, João Dias da Silva confessa que "o futuro passa pelos professores".
Apesar de ter sido delegada às escolas uma responsabilidade muito grande no papel de educar os nossos jovens, João Dias da Silva alerta para o facto de que "os pais têm que continuar a ter um papel relevantíssimo na educação dos seus filhos", acrescentando que "mesmo que os pais cheguem cansados a casa, mesmo que o trabalho não lhes tenha corrido bem, eles têm o dever e a obrigação de estar com os seus filhos". Por outro lado, este professor considera que "mal vai a sociedade se os pais e as famílias se descartarem da sua responsabilidade e a quiserem transferir para as escolas". Daí que considere que "temos o dever de distinguir os campos de intervenção de cada um dos lados sabendo, no entanto, que é essencial que haja uma ponte permanente entre a escola e a família".
É certo que a sociedade tem assistido a uma transferência para a escola de múltiplas responsabilidades sociais. A escola que, antes, tinha uma dimensão instrutiva, ganhou hoje, muitas outras dimensões, exigindo-se mesmo à escola, outros tipos de formação, como seja, a formação rodoviária, a formação para a saúde, para o ambiente, entre muitas outras. A este respeito, João Dias da Silva considera que "é ao Estado e à sociedade que compete assumir também as suas responsabilidades, na área da educação das gerações futuras", atendendo ao facto de que "a escola nunca cumprirá o seu papel, se todos os outros se demitirem das suas responsabilidades e a transferirem para a escola".

Dificuldades

Nesta sociedade em completa mutação, muitos são os problemas e as dificuldades com que alguns professores se debatem. Existem casos conhecidos de indisciplina, desobediência e desordens nas salas de aulas. Para além destes problemas, João Dias da Silva afirma que "sendo a escola o espelho da sociedade, a diminuição do respeito pela autoridade não se verifica só nas escolas". Com efeito, quando a tradição já não é o que era, João Dias da Silva lembra que "os polícias, os advogados ou os médicos, por exemplo, não são tão respeitados". Por conseguinte, "não se pode querer que a escola seja o lugar da autoridade quando a sociedade se demite, mesmo ao lado da escola, de assumir essa autoridade". Com isto, João Dias da Silva não quer dizer que os professores também não tenham que se preocupar com a sua adaptação aos novos problemas e às novas realidades que vão surgindo. Uma dessas mudanças, tem a ver com a adaptação às novas tecnologias. João Dias da Silva questiona mesmo o facto de "numa sala de aula não ser chocante que o único que não sabe mexer num computador, seja o professor", acrescentando que "hoje, uma criança com 6 ou 7 anos já sabe fazer uma pesquisa na Internet ou enviar um e-mail". Daí que defenda que, "os professores têm que ter uma formação constante de actualização às novas realidades e em relação às mudanças sociais que têm vindo a ocorrer".
Por tudo isto, João Dias da Silva lembra que, "ser professor, hoje, não é uma profissão de risco; é, antes, uma profissão com muitos riscos".
Outra dificuldade, tem a ver com o facto da diversidade de origens culturais que o jovem transporta para a escola, dos hábitos de comportamento que adquire nos ambientes sociais em que vive. A esse respeito, João Dias da Silva considera que "já não temos uma população escolar de alunos que quase se limite aos que têm origem em extractos mais favorecidos e para as quais a formação inicial de professores os preparou" e, por isso mesmo, "o professor tem que ser capaz de, perante este confronto cultural, se adaptar a todos eles". Para além disso, João Dias da Silva volta a lembrar que "não cabe à escola e aos professores minimizar essas rupturas de risco". Daí que, no que respeita às queixas que são apresentadas pelos professores, os assuntos ligados à indisciplina, lideram qualquer tabela.

O professor do futuro

Para que os alunos se sintam bem numa sala de aula, o professor deve e/ou pode adoptar determinados tipos de comportamento, para além de que, o facto do aluno se ambientar com a turma, faz com que se sinta mais importante na sala. Por conseguinte, é ao professor que cabe zelar pelo bem estar na sala de aula, ao mesmo tempo que pode "criar hábitos e fazer com que o aluno possa querer saber mais sobre determinados assuntos".
Para além disso, sendo o professor um "pilar indispensável na educação dos jovens", João Dias da Silva confessa que "o professor será, acima de tudo, o referencial pela forma de estar que o jovem irá adoptar na sua vida".
Daí que o professor que se preocupa com o futuro é alguém que "domina outras tecnologias, para além de ter que construir a sua relação com os alunos, tendo em conta as alterações tecnológicas que estão a ocorrer". Por outro lado, "a relação professor/aluno terá que continuar a existir de uma forma pessoal, nunca se tentando transformar essa relação em algo impessoal, feita através de máquinas". Caso contrário, João Dias da Silva alerta que "perderemos o sentido do humano nas nossas vidas se não se preservar este aspecto pessoal que existe e que continuará a existir na vida dos professores e dos alunos".
Por outro lado, independentemente do que ocorrer, João Dias da Silva confessa que um professor, seja agora, seja no futuro, "deverá ser sempre sincero, leal e, acima de tudo, um bom profissional".

Entrevista publicada hoje no jornal O Primeiro de Janeiro, no âmbito de um trabalho chamado "O Professor como Referência".
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